A crise tem rosto humano, gente que ganhou coragem para pedir ajuda e de assumir que foi enganada pelos que se perdem em insultos, na procura de luxos e de benefícios vergonhosos, que coexistem com uma imensidão de dramas reais, com nome.

Celestino Rodrigues Cró parou-me na rua. Pediu-me educadamente que escrevesse sobre a morte silenciosa. Ou que dissesse a alguém com tempo de antena na televisão que há gente a sofrer por ser pobre, não ter conhecidos e não ser tratado com dignidade. O seu caso contraria todos os discursos de políticos aparentemente bem intencionados. Celestino esperou 11 anos por um exame urgente ao coração, depois de ter sofrido um AVC! O pedido feito em 2001 foi finalmente concretizado na passada semana.

‘Manuel Sousa’ é enfermeiro. Trabalha numa das unidades de saúde com carências ao nível dos recursos humanos mas que está a despachar quem contratou. Escreveu-nos na tentativa de travar a revogação de contratos. Mas também para evitar males colectivos maiores. Garante que “há uma imensa falta de enfermeiros no hospital, e em certos serviços quase não dá para garantir os padrões de segurança mínimos aos doentes”! Comprovadamente, a alegada qualidade dos serviços de saúde é fictícia. A vida que alguns dizem não ter preço está a ser posta em causa pelos maus gestores.

‘Ana Silva’ foi vítima de violência doméstica. Para além do sofrimento e danos emocionais que os maus tratos causaram, perdeu o emprego. “Não tenho apoios nenhuns, fiquei sem nada, estou começar do zero”. Através da rede social, solicitou-nos ajuda. Quer trabalhar. “Vou para qualquer coisa!”, apesar de se achar com capacidade para auxiliar do sistema educativo ou prestar apoio domiciliário. Até enviou o currículo que nos comprometemos a enviar aos poucos que ainda têm empregos para dar.

Rui Alexandre é encarregado de educação. Tem um filho numa escola que está a funcionar há mais de um mês sem gás, sem higiene e sem refeições quentes. Os alunos não tomam banho depois das aulas de educação física e na cantina não há sopas. Desesperado, socorre-se de nós. Só pede “uma notícia”! Julga que a denúncia pública tem efeitos práticos e leva a secretaria a resolver o assunto.

Luísa Cristina acabou o curso. Não tem nada para fazer. Nem tem pachorra para se submeter a mais um estágio que nada garante. Pergunta-nos se o emprego a tempo parcial que a Câmara do Funchal lançou abre portas para uma colocação. É que se não der, nem concorre. Pior do que a crise é o desalento.

É longa a lista de pedidos e desabafos. São diversos e chegam-nos como nunca, sinal de que muitas das estruturas sociais com responsabilidades na educação, saúde, segurança, justiça ou desporto falharam na sua missão. Infelizmente não temos emprego para dar. Mas temos disponibilidade para ouvir, para noticiar e assim ajudar a resolver.

Se quiser conte-nos a sua história, exponha o seu caso e, sem vergonha, nem preconceitos, peça auxílio. Escreva-nos para [email protected]. Ou então procure-nos.