Fevereiro foi um mês estranho. Para mim, pelo menos. Ouvi e li histórias inimagináveis sobre maridos que cometeram atrocidades contra as suas mulheres. Vi publicidades na TV que, em pleno dia dos namorados, apresentavam as elevadas estatísticas anuais de divórcios como argumento de legitimação do namoro ad eternum. Assisti também à total desolação de amigos, cujos companheiros de longa data decidiram ir embora sem uma única explicação ou, pior, usando razões que pouco ou nada tinham a ver com o fim do amor. Testemunhei separações com discussões abomináveis e filhos a serem despejados em casa do pai ou dos avós. Participei igualmente em conversas de mulheres divorciadas que desejavam, com ardor mal disfarçado, que os seus "ex's" arranjassem uma namorada que ajudasse os filhos a fazer os TPC's porque elas já não tinham pachorra. E, como se não bastasse, num zapping distraído de fim de dia, escutei as constrangedoras afirmações do recém elevado a cardeal D. Manuel Monteiro de Castro sobre a necessidade da mulher ficar em casa a educar os filhos e a prestar atenção às conversas do marido… Tudo isto no mês mais curto do calendário que ironicamente é consagrado ao amor, esse sentimento que nos define como espécie, que nos dá força para tudo, mas que, quando acaba, deixa um vazio que nos torna capazes de tudo. Por isso, por esta catadupa de acontecimentos aleatórios protagonizados por maridos e mulheres mal amados e por um cardeal com cheiro a Estado Novo, dei comigo a pensar que nós, portugueses, até nestas questões do (des)amor somos um povo de extremos que confunde a justa medida com submissão, cedência ou abuso de direitos. Não temos, de facto, propensão para o equilíbrio e isso fica evidente no momento de pôr ponto final num casamento. Ou partimos para a violência, seja física, seja verbal, ou para um estado de alienação absoluta que se traduz em atitudes de um egocentrismo atroz que nos catapulta para a fronteira do egoísmo irracional. Não consigo deixar de ficar triste, isso mesmo, triste, por ver que ninguém está imune à calamidade do fim de um casamento e, sobretudo, ao descalabro a que o amor cede lugar quando é hora de dizer adeus. E perco-me a tentar encontrar o instante em que tudo se desmorona, o preciso momento em que dois amantes deixam de ser um e passam a caminhar em sentidos opostos. Quando? Naquele momento em que falhámos o beijo? No outro em que o elogio ficou por dar? Ou naquele outro em que preferimos ficar com os amigos a ir para casa? Ou simplesmente no dia em que começámos a falar de banalidades para não falar de nós? Qual o preciso momento em que o amor acaba e tudo descamba, tornando-nos maus, perversos e capazes de tudo? Há dias, numa conversa de café sobre a estranheza deste fevereiro, uma minha amiga, por sinal advogada, dizia-me que nestas questões de divórcios o importante é pôr um a comer na mão do outro. Quem comeu a carne, que roa o osso, afirmava, garantindo-me que, hoje em dia, as mulheres lutam mais por ficar com a casa do que com a custódia dos filhos e que os homens, esses sempre que podem se esquecem daqueles. E o que havia antes, perguntei eu. Foi-se, respondeu ela. É mesmo assim, foi-se. Mas o facto de se ter ido, contrapus, iliba-nos de culpa? Iliba-nos das responsabilidades que assumimos a dois? Não me parece. Nem tudo o que é possível é o correto, concluia ela. E não é de facto. Vivemos tempos controversos, polémicos até. Nada parece ter limites. Esquecemo-nos do que é ser adultos. O mundo parece às avesas, porque nele ninguém quer assumir o seu papel. Nem o de mãe nem o de pai. Apenas o de "ex" ou de eternos adolescentes. E é por isso que a questão acaba sempre por se impor: qual o preciso momento em que tudo começa a se desmoronar? Infelizmente, não sei. Ninguém o sabe talvez. Alvitro apenas uma hipótese quanto ao preciso momento em que as coisas poderão voltar a se endireitar: aquele em que formos capazes de seguir em frente, assumindo as opções tomadas, os erros cometidos e o que ainda está por vir. Sozinhos, é claro, mas em paz e sem vãos ressentimentos. * Artigo escrito segundo a nova grafia
Eker Sommer