"Usamos todos a ilusão de fabricar a vida: história, constelações de sons e gestos. Usamos todos a suprema glória do amor: por generosidade ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem universos" (Ana Luísa Amaral, «Se fosse um intervalo», 2009) Um homem levanta-se. Declara, em passo ágil e leve e largo (como as suas palavras): "é preciso ser louco", "é preciso ser alfabetizado (mas não muito...)"; motivar-se; «apressar-se devagar» (o mais delicado e dedicado ofício da paciência, a tão célere quanto demorada - tentada - arte do encontro da palavra justa). "Tem de ter imaginação". "Acabou?", pergunta-nos. Não. "Só mais uma coisinha: vocês aí não vão pensando que também não são loucos..." O homem sorri, lúcido, feliz. Outro homem está sentado, é tocado por estas palavras e, no ombro, pela mão do corpo de que se soltam "sons e gestos"; sorri também: "este aqui, não parece, mas também é louco..."; surpreendido, sorri, com brandura, tímido. Cúmplice. "Suprema glória do amor: por generosidade ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem universos" (Ana Luísa Amaral) parecem-me as palavras justas para (tentar) descrever o encontro de um com o outro homem. O tempo tem-se demorado em Rubem Fonseca, que se levanta, e Eduardo Lourenço, sentado. Rubem Fonseca declara: "amo a língua portuguesa". Une-os (intuo) - a par da generosidade e do amor à língua, à literatura e à cultura portuguesas a que se dedicam com a vagarosa pressa da paciência - "a sofreguidão lúcida com que uma criança busca respostas para a vida, a morte e a eternidade" (justas palavras de Inês Pedrosa contidas na revista «Correntes d'Escritas» de 2012 que na edição deste ano foi lançada na Póvoa do Varzim). Não o tempo mas o "espanto" se tem demorado em Rubem Fonseca e em Eduardo Lourenço. Em ambos mora "a inteligente humanidade gentil" (palavras que Gonçalo M. Tavares dedica ao "querido professor"). Conto dois homens (lembro como Gonçalo M. Tavares desdobrou a palavra: "contabilidade" ou "história"). Aprendi - em quieto silêncio - como estes dois homens são "universos". Intuo - emudecida - quanto (sem medida) no instante deste encontro me aconteceu sentir "a ilusão de fabricar a vida". Como Inês Pedrosa (obrigada): "não tenho mais nada a dizer."
Diana Pimentel