Duarte Nuno Gouveia Sou contra o novo cais acostável projectado para o Funchal. Imaginem-se a entrar no cais do Funchal, o escape natural da cidade, e imagem à vossa esquerda o projecto proposto. Imaginem-se deslocando na Avenida do Mar em direcção ao Almirante Reis e imaginem à vossa direita o projecto proposto. Existe alguma aposta de progresso que justifique a "oclusão" do mar? Têm a certeza? Agora imaginem o contrário. Que só conheciam desde nascença uma enorme infra-estrutura portuária naquela zona. Imaginem agora que, de um momento para outro, lhes ofereciam um projecto melhorado daquela zona: uma praia de pedra e areia e uma bandeira azul à frente da cidade. Qual a vossa opção? Pois. Mas estamos a perder. As próximas gerações vão perder irremediavelmente com um facto consumado derivado da nossa inércia. Eu sei que eles quereriam aquilo que temos agora! Terão outra educação, outra sensibilidade. O projecto vai avançar. Já foi feito tudo? Não deixem que descaracterizem uma cidade centenária a quem querem "subtrair" o mar. O Funchal e a sua baía são uma entidade única. O mar é um prolongamento natural da cidade, faz parte integral do equilíbrio da cidade! O mar é para estar ali, à mão, para quando precisamos dele. Sem entraves, na sua cumplicidade delicada, rica, complexa, com a cidade. O hábito torna-se obtuso quando já não é capaz de reconhecer a riqueza com que convive. O hábito torna-nos cegos face ao que vamos perder com esta obra. O cais que pretendem construir cerca a cidade. É um inerte, uma violência arquitectónica e paisagística de justificação económica duvidosa e pouco discutida. Uma interposição desnecessária entre os cidadãos e o oceano no qual se projecta a nossa identidade. Interposição essa que rapidamente se tornará obsoleta face ao tamanho padrão dos transatlânticos do futuro, cada vez maiores. Olhem para ele serenamente e ponderem se estão de facto dispostos a perdê-lo sem um último grito de protesto em nome da cidadania. Inquietem-se porque não há, na minha opinião, massa crítica no projecto de negócio que justifique a obra. A economia da Madeira vive do 'doping' do endividamento. Necessitamos de investimento que crie valor pelo que os recursos disponíveis devem ter um modelo de aplicação diferente. Até Merkel evoca o "case study" Madeirense. Há um limite para os negócios com o turismo, a nossa descaracterização. O que nos diferencia neste negócio, e que os turistas percepcionam, é o carácter com que defendemos a nossa genuinidade. Perdemos? Os líderes de opinião da sociedade Madeirense não podem fazer mais nada? As organizações cívicas não podem fazer mais nada? A Câmara deixou de lutar? Os partidos políticos não podem fazer mais? Cada um individualmente não pode fazer mais nada? Não deixem fazer isso ao Funchal!