Um grupo de deputados do PSD-Madeira sugeriu esta semana aos madeirenses que querem cultivar e não têm terrenos que os aluguem. Confesso que também fiquei surpreendido, mas é verdade. Sejamos honestos: a proposta é perfeitamente aceitável e até mesmo recomendável. Sobretudo para quem, como eu, gosta de sujar as mãos na terra, aprecia uma boa horta e lamenta a quantidade de poios que temos por essa ilha completamente abandonados. Por aí não há nada a dizer, a não ser aplaudir a coragem do PSD em recomendar uma prática que deve ser ser implementada sem complexos. O que me surpreende nesta proposta é a completa mudança de atitude, de registo e de rumo. É que o PSD que agora sugere aos madeirenses que peguem na enxada é o mesmo PSD que durante anos trocou essa enxada e a foice pela pá, o martelo e a betoneira que ajudaram a cimentar grande parte desta terra. Por outras palavras, o mesmo PSD que queria fazer da Madeira a Singapura do Atlântico, o centro de serviços e negócios de excelência, um pólo de turismo de elite e outras megalomanias, quer agora valorizar a terra, a natureza, a paisagem. E sublinho o agora, porque me parece que a ideia já vem tarde. Agora que o partido do Governo diz, baixinho e humildemente, que é preciso voltar a cavar, os madeirenses pensam, alto e seriamente, mas é em 'cavar' daqui para fora. Porque sentem que este ciclo está esgotado e vêem na Região um terreno árido, seco e estéril. Nos anos loucos do início deste século, se alguém da Oposição se atrevesse a sugerir o aproveitamento das terras levava pela medida grande. Que era ignorante, que não temos área para uma agricultura decente, que a terra era coisa da Madeira velha, que queria fazer estradas com palha de bananeira. Passados poucos anos, até já se fala em enriquecer com a agricultura. Na mesma terra pequena e sem condições de outrora, quem nos governa vê agora um meio de desenvolvimento. É claro que esta saudável e repentina humildade, este assentar os pés na terra, no sentido mais literal da expressão, não saiu do nada. É o resultado claro da constatação de que o caminho alcatroado em que nos conduziram nos últimos 30 anos chegou à beira do Pináculo ou de outra falésia qualquer. Não tem saída. Resta fazer inversão de marcha e voltar pela vereda, de onde efectivamente saímos pela mão deste governo, mas sem o cuidado de a manter limpa para o caso de ser preciso voltar. E é preciso voltar. É imperioso assentar, pensar, planear e só depois caminhar. Mas, como todos sabemos, antes de tudo isso é preciso pagar. Apesar de tudo, temos de reconhecer que esta mudança de registo da maioria tem os seus benefícios. É verdade que vem tarde, muito tarde mesmo, mas talvez ainda a tempo de evitar males maiores. Para isso é preciso que o Governo Regional acompanhe o realismo de boa parte do PSD que já percebeu o logro e que procura acertar ponteiros. Com a excepção do secretário que tutela a Agricultura e de alguns técnicos e autarcas, durante anos a fio a maioria preferiu cimento a terra. Agora, nota-se uma ténue mas significativa mudança de opções. É a presidente da Segurança Social a admitir cantinas sociais para evitar o caos, é o presidente de Câmara de Lobos a pensar num refeitório social, é a generalidade dos autarcas a falar de prioridades, é, a outro nível, o bispo do Funchal a reconhecer dramas humanos neste pedaço do paraíso. Para quem ainda não percebeu, a vida mudou. A Madeira mudou. O País e a Europa mudaram. O PSD-Madeira está a mudar e alguma Oposição acompanha a mudança. A crise tem destas coisas, obriga a agir de forma diferente, a ser mais humilde, a recuar de fininho, a engolir sapos enormes, a arrepiar caminho. E, ao contrário do que nos foi dito para fazer nas últimas três décadas, desta vez não é para meter mãos à obra. É para meter a enxada na terra e voltar a cavar. Aqui, ou daqui para fora!