Uma amiga que este ano ainda não recebeu nenhum ordenado, dois casais que vão tentar a sorte noutras paragens, outros tantos a se preparem para o caminho da emigração, como fuga ao cenário depressivo que o país se está a tornar. Isto em apenas uma semana e só no meu círculo mais próximo deu-me que pensar.

Não é de hoje que os portugueses, e os madeirenses em particular, seguem o sonho da emigração, é verdade. Mas confesso que, para mim, este boom de gente que sente que este país já deu o que tinha a dar, que se desilude todos os dias, apesar do sol que teima em brilhar como se avisasse a ‘troika’ que podem-nos tirar tudo, mas não nos tiram este temperatura amena e esta luz abençoada que tanta inveja faz aos gélidos, certinhos de contas e cumpridores de défices, é novo.

A culpa não é de nenhum papão externo, por mais que nos custe. Bem sei que a ‘troika’ nada tem a ver com a forma desenfreada como se gastou por cá, como se incentivou ao crédito fácil e se criou a ideia nas gerações anteriores que isto era sempre a subir e a crescer.

Sonhou-se de mais, hoje sonha-se de menos. Aliás não se sonha de todo e pouco ou nada se espera.

Gosto pouco da autocomiseração, dos que gritam que estão à rasca, mas nada fazem por se desenrascar. Bem sei que a vida por norma não é fácil para os jovens, que várias gerações tiveram as suas lutas: Pela liberdade, pelas melhores condições laborais, pela educação.

Mas à minha geração e à outra, que só agora chega a um mercado de trabalho sem vagas, resta lutar por quê? Por que sonho? O de ficar estrangulado anos a fio pelas dívidas que não são nossas, de preferência sem fazer barulho, que isto é uma terra de gente honrada e que cumpre os seus compromissos? Ou ir para fora, virando costas a uma pátria madrasta, que parece gritar todos os dias que estamos a mais?

Há quem diga que esta é uma geração parva, a que estuda para trabalhar de borla. Mas a parvoíce aqui é geral, é de um país que não percebeu que o seu maior capital são as pessoas. E que a sua maior energia são os sonhos, aqueles que o poeta disse que comandavam a vida e faziam o Mundo pular e avançar.

Somos parvos, de facto, se deixarmos que nos impinjam esta ideia de que não podemos sonhar, que estamos vetados a esta pequenez que é nossa. Somos parvos se não ousarmos. A nossa luta é grande e inglória. Mas é nosso dever para com as gerações que aí vêm fazermos mais e melhor do que fizeram por nós. Lá fora ou cá dentro.