Tenho sido nos últimos anos um observador atento (e leitor compulsivo) das questões relacionadas com aeroportos e aviação comercial no nosso País. Tenho mantido uma relação muito próxima com toda a actividade aeronáutica. Umas vezes por interesse material, outras vezes por paixão, há coisas na vida com as quais nos relacionamos, que acabam por resultar num valor sentimental importante que nos leva a um acompanhamento intenso e a uma procura constante de explicações quando não entendemos ou não admitimos determinadas soluções ou encaminhamentos. A TAP e a ANA – Aeroportos de Portugal são precisamente duas pedras-base da actividade aeronáutica em Portugal. Vou juntar-lhes o INAC, órgão regulador, e a NAV Navegação Aérea, que controla nos céus os aviões e em terra o movimento aeroportuário. Tenho me interessado por estas entidades e acompanhado o seu desenvolvimento. A TAP é uma empresa de transporte aéreo, como muitas outras, de média dimensão europeia, mas de uma importância extrema num país como Portugal, onde não há outra qualquer que se pareça, e porque é responsável por uma rede de voos que considero de vital importância para o nosso relacionamento com o mundo, com as comunidades e países onde vivem Portugueses. Além do negócio que a companhia aérea produz, sobretudo em divisas – é a maior exportadora portuguesa – é uma empresa que dá trabalho a milhares de pessoas e que, operacionalmente, até tem um desempenho positivo. O problema é uma dívida que acumulou ao longo dos anos, com diversas administrações e governos a assobiar para o lado… como é vulgar agora dizer-se. Uma expressão que se emparelha no grupo moderno, mais televisivo do que escrito, da “sociedade civil” que deve significar um conjunto de desenfardados e da “culpa morreu solteira” que é outra expressão que não consigo relacionar com qualquer noivado. A secretária de estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, confirmou ontem que as próximas privatizações a avançar serão as da TAP e a da ANA. Se tudo correr bem estarão no terreno até ao Verão. Depois dos milhões arrecadados com a venda da EDP e da REN a chineses e árabes, povos contra quem não me move qualquer impedimento ou ressentimento, chega a hora de entregarmos outros activos estratégicos a quem pagar mais… em nome da austeridade, reconhecendo o nosso fracasso, a nossa falta de jeito para gerir as coisas públicas. Estratégia estúpida de vender o ouro para pagar dívidas em vez de trabalharmos para rentabilizar activos e negociar dívidas. São as tendências mercantilistas que se renovam. Não aceito a privatização da TAP e da ANA. Não aceito, mas terei de lidar com o cenário. Inevitável. São dois activos estratégicos que poderíamos gerir sem ajuda de mais ninguém, mesmo sendo públicos e com os seus actuais estatutos. Não me parece, e aqui devo falar como ilhéu da Madeira, (já que os Açores terão solução encontrada) que a privatização de qualquer uma dessas empresas públicas traga benefícios. O futuro da Madeira passará a ser uma grande interrogação em termos de acessibilidade aérea, logo que seja lançada a privatização da companhia. Mesmo considerando a importância do mercado regional, o que produz e o que gera, que interesses irá privilegiar o futuro dono da TAP, se, por exemplo, comprar a empresa com o fito nas linhas da Europa para o Brasil e África, ou se, por outro lado, colocar o foco na excelente rede de ligações que tem entre Lisboa e dezenas de cidades europeias onde a TAP é uma referência? Estamos, inevitavelmente numa situação de menoridade, neste negócio. Nem ouvidos nem achados, mesmo sendo mais ou menos 10% do movimento de passageiros e do negócio total da companhia. Quem está a velar pelos interesses dos madeirenses? Quem garante que amanhã, quando a TAP pertencer à aliança anglo-hispânica IAG (British Airways e Iberia), ou a uma companhia ou fundo soberano árabes, ou ainda a uma transportadora sul-americana (fusão da brasileira TAM com a chilena LAN), todos potenciais compradores, a Madeira terá a mesma importância que tem hoje no actual xadrez da TAP? É bom que não nos satisfaçamos com as respostas de um governo ultraliberal que tudo quer vender, de que serão acautelados os interesses das ilhas e as acessibilidades às Regiões Autónomas. O excesso de imposições (mesmo que sejam restabelecidas as obrigações de serviço público) afastam os potenciais compradores e Lisboa sabe disso. Mais que duas ou três viagens diárias de Lisboa para a Madeira não irão aparecer no novo quadro, onde hoje há seis voos, em tempo de crise, já que o normal deveria ser 10… E o Governo Regional que diz a este cenário? A culpa será de Lisboa, o inimigo mais à mão, porque não temos companhia aérea… e a República é responsável pelas acessibilidades. Como muitos portugueses não alinho na festa de todas as privatizações. A minha noção de economia de mercado – porque de ciência económica só aprendi o básico e pouco mais interessa neste caso – não contempla a privatização de toda a economia, muito menos dos transportes e das plataformas que servem o sector. Quanto ao resto, privatizem tudo… mas tudo. Incluam alguns políticos ao desbarato, os que se vergam aos senhores da Europa que nos obrigam a alternativas indecentes e que, curvados e com reverência, perguntam ao “titio” alemão se está satisfeito com o desempenho do sobrinho feio, outrora cábula e de má cabeça, que agora se tornou estudioso e que até já faz bem o trabalho de casa… Mas falava de aviões e aeroportos. A paixão continua, sem esconder a tristeza e a certeza de que numa economia como a nossa, por razões históricas e territoriais, com Regiões Autónomas que vivem do turismo e da emigração, a TAP e a ANA deveriam continuar no sector público. Seriam a excepção proteccionista num regime que, acredito, tem de liberalizar e privatizar a economia para ter os favores dos donos do dinheiro. Não é que a privatização acabe com os postos de trabalho, acabe com os aviões nos aeroportos portugueses, ou signifique que o nome da companhia desapareça. É porque a venda da TAP significa cedência e desprendimento de uma marca que orgulha o País. O alerta está lançado. Também para alguns pilotos e outros trabalhadores que hoje querem fazer o favor ao governo de provar que a companhia não funciona com o actual estatuto, face às suas reivindicações, algumas intoleráveis, que são autênticos actos de suicídio nesta fase do campeonato.