Esta coisa de ser ilha, pequena, longe dos mercados e da massa crítica suficiente para liderar processos e decidir sobre caminhos, em toda a nossa história, tem-se revelado um constrangimento maior. No meio de um mar imenso, a ilha, quando para ele se volta, resulta sempre mais pequena. Talvez seja esse um dos resultados de uma visão da Madeira como sistema fechado, de onde saíram conceitos como o cantinho do céu ou a pérola do Atlântico. Sendo jóia, o seu uso foi gerador de um estatuto que, durante anos, serviu uma causa em favor de uma qualidade, segurança, familiaridade, que criou um turismo fiel de que parece querermos desistir por via de uma redefinição em torno do que não somos, nunca seremos e, muito menos nos verão como tal. Já o cantinho do céu, talvez tenha resultado da necessidade de encontrar, em nós mesmos e no reduzido ambiente que nos condiciona, alguma ponderação positiva, face à natural propensão para o insignificante que a localização e tamanho nos remete. Cantinho do céu, como sinónimo de harmonia, salvação das misérias e desgraças que grassam por esse Mundo que, entretanto se tornou mais pequeno, igual e, consequentemente, revelador de que não temos céu, apenas cantinho. Para onde olhar então, neste momento de óbvia perda e diluição no processo normalizador que ainda nos reduz a uma dimensão infinitamente pequena? A única coisa que temos de tamanho significativo é o mar, o imenso Atlântico que sempre aqui esteve mas que nunca fomos capazes de olhar sem ser como meio de chegada ou partida. Esse Atlântico, imenso, está a dias de ser governado, regulado e gerido, no quadro da governação marítima Europeia. Em Novembro de 2011, a Comissão Europeia lançou o processo de desenvolvimento de uma Estratégia para a área do Oceano Atlântico. É um processo que está em marcha, que pretende olhar para as ameaças e oportunidades que se colocam na governação de uma dos mais importantes recursos comunitários. Tão importante que, à cabeça, deverá seguir um modelo de gestão integrada, que considere todas as suas vertentes de modo diferente do habitual. Sob uma visão ecossistémica, a exploração dos recursos, as pescas, aquacultura, turismo, portos, transportes, biotecnologia, conservação da natureza e biodiversidade no Atlântico, deverão gerar novas oportunidades e riqueza aos povos europeus. Tão importante é esta estratégia que a Comissão lançou um processo de consulta e participação pública, no qual os cidadãos, os Estados e as regiões deverão assumir e propor objectivos específicos e ajudar a melhor definir uma Estratégia que sirva a todos. A questão é: a Madeira está a participar? Está a promover a reflexão e recolha de propostas? Está a exigir? Não é do conhecimento público que haja algum movimento neste sentido. Talvez a postura do costume, a de exigir um programa específico, só para nós, coitadinhos, não chegue. Está mais que na hora de assumir um papel positivo, criador e competitivo, ou não sejamos nós atlânticos por natureza. Vamos deixar que sejam os outros a definir a nossa estratégia? Vamos, esperar que o Estado ou os outros países façam sozinhos o que entenderem, limitando-nos a esperar pelas migalhas do costume, aquando dos programas operacionais? Não deveríamos, desde já, ser nós a escrever o que serão esses programas, a concertar com os nosso parceiros estratégias de interesse mútuo, a exigir acesso igual a papéis de liderança no que quer que seja que venha a ser decidido? Esta é uma oportunidade que não se repetirá tão cedo. E também não haverá outras políticas sectoriais em cuja formulação nos venha a ser concedido um espaço de participação tão evidente e de direito como este.
António Domingos Abreu