Martins Júnior O carnaval começou mais cedo em Machico, desde aquele instante serviçal em que a nossa original TV entrevistou um par de conhecidos figurões cá do sítio: falaram e lacrimejaram sobre a apatia turística deste que foi outrora o pólo alternativo ao Funchal: "Está tudo parado, o turismo, o comércio, os clientes, enfim, a vida em Machico". Gostei de ver, palavra, adorei. Pela qualidade dos artistas e pelos sentidos prantos sobre leite derramado. Eles são gente de porta aberta e até representantes oficiais de quem tem negócios virados para o turismo. Caracterizam-se por um pescoço inamovível e crâneo sem memória. Porque não olham para trás e nem se lembram como é que Machico chegou a isto. Nunca aprenderam que o turismo não nasce por geração espontânea, mas que deve ser tratado como uma planta que deita raiz, dá tronco e só depois flores e frutos. Esquecem que foram eles que ajudaram a cortar a árvore endémica que era Machico-turístico, mataram a galinha que ainda punha ovos de ouro. Esquecem-se do que vomitou um tal folião-mór em espasmos de raiva e tédio: "Para Machico nem um tostão"… Em banquetes partidários deliciaram-se até às entranhas quando ouviam espumar o injustiçado reclame "Machico é o terceiro mundo"… Bateram palmas alucinadas quando, olhões fanatizados, bigodes hirtos, altaneiros, deliravam em comícios de porta de sacristia com o chefe a bradar "Ninguém invista em Machico por causa de uns comunistas que lá mandam"… Nem ao menos sonharam que com essas palmas estavam assinando à própria sentença do suicídio anunciado, das sua lojas, das suas agência de viagens. Nem trouxeram nenhum outro hotel para cá, nem uma única residencial. Agora, só agora, mas derribados, olhos em bico e bigodes murchos, agora é que choram pelo turismo. Não se lembram das toneladas de desaterro que deitaram no cais para dar lugar a seus monstros de betão no coração da cidade, estrangularam a jóia da coroa da nossa baía, esquartejaram a nossa praia, barraram a entrada da nossa sala de visitas com aquele hotel "mel-cheiroso" (o olfacto do povo dá-lhe outro nome…) rebentaram aos olhos de estrangeiros e residentes o majestoso anfiteatro do vale de Machico com essoutro muro disforme que dá pelo pomposo nome de "Fórum", hoje reduzido à humilhante condição de noiva-de-pés-amarelos que ninguém quer pegar, nem mesmo a preço de saldo. Rasgaram as preciosas orientações que, a meu pedido, Siza Vieira veio trazer em 1993 (mais uma vez obrigado, Mestre!): "Presidente, tenha o maior cuidado no tratamento desta zona ribeirinha" E antes dele, desde a década de 70, o investigador Manuel Rufino Teixeira. Jogaram aos tabaibos o plano do Terminal de Turismo que, também a meu pedido, elaborou o arquitecto B.Rubenstein para a zona do ex-campo de futebol. E muito mais. Mas é carnaval, Não chorem. Divirtam-se, metam-se no "Trapalhão" e levem "santos às costas", lambidos de selos, levem tabuletas de ruas, levem répteis e ratazanas, levem os carros penhorados e mais os mamarrachos atrelados à sua cegueira política. Mas, como pede o chef, não cuspam mais no prato que lhes deu sopa, da gorda… Pela nossa parte, ainda é tempo de refazer Machico genuíno, o nosso, pelo qual muitos de nós lutámos com amor e paixão!