Mesmo que levem a mal, há frases e factos que revelam folia, não fossem estes dias por excelência de farturas, máscaras e vaias.
1. Jardim voltou a assinar o que escreve. Fê-lo de forma eloquente no seu jornal: “Vi já que alguns que se diziam ‘amigos’, ‘leais’, ‘fiéis’, ‘solidários’, começam a se aproveitar das circunstâncias para, em defesa de interesses egoístas que são ilegítimos nas presentes circunstâncias, qual gangsterismo tentarem a sujeira de me apunhalar pelas costas”. Senhor presidente, viu mesmo ou disseram-lhe? Se lhe ‘bichanaram’ ao ouvido, não lhe contaram também que a Região, ainda sócia de uma SAD a vender a pataco, está a ser cúmplice da emissão de mais um ‘cheque careca’? Quem é que em perfeito juízo quer apunhalar alguém que muito deve, tanto ao nível das explicações, como no capítulo financeiro? Desde quando é que é ilegítimo defender interesses pessoais? Não é isso que faz quando reclama o direito ao bom nome e quando processa por nada? E será sujeira querer limpar os passivos, a imagem e… o resto?
2. O mesmo signatário da prosa que antecipa cenários apocalípticos garante que “Roma não paga a traidores”. Finalmente está descoberta a tese ao abrigo da qual gere as facturas que chegam aos diversos do Governo. É que a Madeira falida também não paga a fornecedores agora insolventes, apesar de humildes e sempre leais; a bombeiros em lenta agonia; e a construtoras de fora, adiantando apenas verbas a farmácias legitimamente inflexíveis e à máquina de propaganda das suas manias.
3. Por ser Carnaval, o negociador-escritor também brinca. “Desde sempre me pronunciei contra as políticas do facilitismo e das promessas que a partidocracia, que sempre combati, utilizava”, como se os madeirenses se esquecessem que “desde sempre” caçou votos com redes de malha apertada, garantindo jantaradas, circo e muito emprego, tanto que agora se vê obrigado a dispensar. A predilecção para a qual agora diz não ter idade, antecipando a retirada necessária face ao aperto que se avizinha, tem gente dentro. Gente que vai perdendo o medo. E tem memória. Essa de avisar: “Sou determinado e não fujo”, esbarra numa série de excepções, como por exemplo, a célebre retirada estratégica quando foi vaiado nos Barreiros. Lembra-se?
4. Por falar em vaias, o primeiro-ministro enfrentou ontem um coro de protestos e assobios na Feira do Queijo, em Gouveia. Ao contrário de Jardim nos Barreiros, naquele Maio quente da década de noventa, e de Cavaco Silva, na passada semana numa escola lisboeta, Passos Coelho quis ouvir e ver de perto que dizem os portugueses revoltados para poder governar melhor, mesmo que venha a fazer pior, esbanjando a oportunidade de recuperar o País e de voltar a ganhar eleições. Em Belém e na Vigia, os hábitos são outros. Os poderosos fogem do confronto, mesmo quando este é vergonhosamente instrumentalizado, perdendo a oportunidade de denunciar agitadores e de dar lições de civismo. Pior, dão mau exemplo a quem tenta ser coerente. “Não foi este mesmo presidente que apelou para a manifestação na rua, de pais e alunos, quando a escola privada foi posta em causa?”, perguntava ontem Rui Moreira, no renovado Jornal de Notícias.
5. O Carnaval de 2012 custou aos cofres públicos 300 mil euros, menos de um terço do que gasto no ano anterior. A secretária regional de Turismo gabou-se e bem de não ter havido perda de qualidade e de ser possível fazer muito com pouco. Apesar de, a espaços, o cortejo alegórico parecer uma antecipação do ‘trapalhão’, as trupes emprestaram de facto colorido e ritmo à avenida, alegria nem sempre retribuída pelo público que às vezes denota ar de estar perante a procissão do Senhor dos Passos. Contudo, Conceição Estudante acaba por comprometer todo Governo, denunciando má gestão de dinheiros públicos no tempo das contas fáceis. A austeridade tem estes méritos.
Nota final - Dois anos depois do '20 de Fevereiro', alguma Madeira continua a fingir que nada aconteceu. Pior do que teimar em não homenagear as vítimas da tragédia ou em não enaltecer os solidários que permitem a reconstrução é permitir que tudo volte a acontecer.