Diz o adágio que sendo carnaval, ninguém leva a mal. Mas os tempos não estão para carnavais, nem mesmo para o verdadeiro.
A esta altura, já não existem máscaras, nem ilusões, e o rei há muito tempo que vai nu. É impossível varrer o lixo para debaixo do tapete e o gato está escondido com o rabo de fora.
Os que ainda dançam já só adivinham chuva e a esperança não foi a última a morrer. Há já demasiado tempo que o inferno está cheio de boas intenções e, na verdade, devagar nunca mais se chega à meta.
Ficamos a saber por linhas supostamente direitas e caminhos claramente tortos que tão depressa se apanha um mentiroso como um coxo, pois a palavra também tropeça e cai, empurrada pela obra insensata.
Pelos erros de poucas cabeças se vai dar a sentença a muitas, porque já não há pão, nem razão.
Sabemos agora que não há males que vêm por bem, mas há doenças que não se curam, nem com pau, nem com pedra.
Cansados e sem esperança, já não nos fiamos na virgem, nem vale a pena correr fora de tempo, pois a cavalo dado devíamos ter olhado o dente.
Quem nos governa, deixou de cair em graça, viveu na ilusão de ser engraçado e levou-nos à desgraça de percebermos, tardiamente, que nem tudo o que reluz é ouro, e que raramente o que nasce torto se endireita. Como pobres, recebemos a esmola e não desconfiamos.
Como quem cala consente, consentimos e, ao contrário do peixe, morremos de boca fechada.
Quem gasta mais do que tem, mostra que siso não tem
E agora que as águas passadas já passaram, resta-nos não conbater moinhos, mas perceber que depois da tempestade vem a gripe.
Será uma sorte se não morrermos da cura.
Afinal, a vida são três dias e o Carnaval já nem é feriado.