O homem não via motivo para tanto alarido. Parecia-lhe até um absurdo estar preso por causa daquilo. "Eu queria ver se dava um jeito a isto", dizia-me ele. "Queria ver se ia para casa com uma pulseira, se saía em liberdade condicional, eu sei lá. Não matei, não roubei, não menti. Isto é um crime sem pés nem cabeça!" O Tribunal de São Vicente condenara-o a uma pena de dois anos e dois meses. "Os vizinhos até foram lá a casa perguntar. Há pessoas que não acreditam que estou aqui por causa disso. Comerciantes, mesmo, dizem: 'Também bebi com ele, não acredito, não acredito.' E já inventam coisas!" O homem, de 34 anos, tentava socorrer-se do técnico de reeducação. "Ninguém está aqui por causa de álcool. É só eu, não é?". O técnico sorria, paciente. "Ao fim-de-semana, há muitos. Já tivemos esta conversa. Ninguém aplica uma pena de prisão efectiva sem antes tentar medidas alternativas. Você prevaricou, não foi?" Não falava nos crimes de desobediência, violação de imposições, proibições e interdições que também praticara. Só falava naquele crime. Fora apanhado quatro vezes. "Tantos andam sem carta ou com a bebedeira e nunca vieram aqui ter! Tenho carta desde os 18 anos. Nunca fiquei que não pudesse levar o carro. Trazia o carro carregado de lenha ou semilhas ou batatas ou milho." Ia ser ouvido dali a pouco. Esperava sair a meio da pena. Mas ainda tinha 66 dias de prisão para cumprir aos fins-de-semana. O tribunal entendera que só assim conseguiria dissuadi-lo de ter aquele comportamento. Também se impunha, pelos vistos, sensibilizar a comunidade de Boaventura. Fiquei a matutar naquilo. Qual a distância entre aquele homem e oidoso que com ele dividia uma camarata do Estabelecimento Prisional do Funchal por ter tirado a vida à mulher com uma racha de lenha na cabeça? Quantos adultos conheço assim? Ninguém os ouvirá dizer que não deve ser crime conduzir com os copos, claro. Não têm a inconsciência que ele escancarara, mas parecem não ter percebido que um carro é uma arma. Tocar-lhes-ia alguma sineta se tivessem uma conversa como esta?

Ana Cristina Pereira