Os dados finais/oficiais relativos à taxa de desemprego, bem como os indicadores mais recentes, vieram confirmar as piores expectativas. Assim, a taxa média de desemprego em Portugal durante o ano de 2011 fixou-se em 12,7%, superando quer a média da Zona Euro (10,1%), quer as previsões do Governo da República e da Troika (12,5%), apenas sendo superada pelas registadas em Espanha (22,9%), Irlanda (14,5%) e Grécia (que, segundo dados ainda não oficiais, já andará pelos 20%). No que diz respeito à Madeira os números são ainda mais preocupantes (13,8% contra os 12,4% inicialmente estimados), sendo certo que os dados relativos a Janeiro de 2010 demonstram que foi atingido um número "recorde" de desempregados (20.067), bem como uma tendência de crescimento contínuo nos últimos 5 meses. Aliás, face ao crescente número de insolvências, ao "bloqueio" do financiamento bancário, à ausência de investimento público e ao carácter recessivo dos "planos de austeridade" aprovados, não é difícil adivinhar/vaticinar que, durante o ano de 2012, as taxas de desemprego (quer da totalidade do país, quer, em especial, da RAM) irão continuar a subir de forma acentuada - para não dizer vertiginosa -, e para patamares próximos dos 20%, se não mesmo superiores. O que é difícil de compreender é que tal inevitabilidade/constatação possa constituir uma surpresa... Designadamente, e no que diz especificamente respeito à RAM, a menos que a ignorância fosse, de facto, o suporte desses "discursos", é difícil de compreender/aceitar que todos aqueles que defenderam - de forma acirrada - o fim do CINM pudessem desconhecer que o mesmo iria provocar desemprego directo e indirecto, ou ainda que os mesmos realmente acreditem que é possível manter/criar emprego sem empresas/empresários fortes. De igual forma, também causa estranheza o facto da Chanceler Merkel parecer não compreender que a mudança do paradigma de desenvolvimento da União Europeia - e que foi literalmente "vendido"/imposto aos pequenos países europeus - não será fácil, nem "suave". Por outro lado, mal se compreende que a "Troika" não tenha consciência que - embora sendo incontornáveis - as medidas de austeridade impostas a Portugal (e à Madeira), não sendo devidamente acompanhadas de medidas de apoio ao crescimento económico, irão conduzir a uma recessão e ao consequente aumento do desemprego. Aliás, o facto do "New York Times" ter recentemente constatado que, apesar de Portugal estar a cumprir tudo o que lhe foi imposto, o PIB nacional irá - com certeza - diminuir, podendo mesmo impor a reestruturação da dívida que tanto se tenta evitar, é sintomático... Por último - e este aspecto reveste carácter estrutural, e não conjuntural -, já se afigurava, mais, ou menos, claro que o modelo nacional de "Estado Social" se encontrava condenado ao fracasso. Com efeito, um Estado que, sendo improdutivo e deficitário, vinha, desde há longos anos, "gerindo" a taxa de desemprego e a exclusão social através da atribuição de subsídios não produtivos e não selectivos, da criação artificial de emprego público - desacompanhado do respectivo "trabalho" e da esperada produtividade - e do imobilismo da legislação laboral, não pode, em consciência, ficar surpreendido com o colapso do sistema. Neste sentido, e porque - infelizmente - o crescimento imediato/acentuado do desemprego é uma inevitabilidade, bem como tendo em conta que os postos de trabalho que agora se irão perder jamais serão recuperados, resta esperar/acreditar que as reformas em curso garantirão a subsistência e o bem-estar dos (muitos) jovens desempregados e das gerações vindouras. É que, se assim não for, a austeridade e a "lição" de pouco terão valido a pena... * Gonçalo Maia Camelo escreve de acordo com a antiga ortografia
Gonçalo Maia Camelo