============003 Título 60 pt Miler - 2 linhas(598299)============ Nunca imaginei viver num período em que a Grécia e a Itália seriam governadas por administradores interinos e, simultaneamente, Portugal pela bitola da cartilha dos seus credores. Talvez por isso, custa-me imaginar o alcance global das consequências que estas intervenções, denominadas de externas, terão na (re)estruturação da sociedade helénica, italiana e portuguesa, mas é de esperar que -a seu tempo- estas sociedades exibam fraturas e mazelas, bem como outras alterações em domínios que tinham por garantidos. No entanto, não são as fraturas ou as mazelas que mais me intrigam, mas a metamorfose a que o sistema democrático destes países pode estar a ser sujeito, como se a democracia pudesse ser orientada por um consórcio em regime de outsourcing. Face à grandura dos acontecimentos não me parece que a alternativa seja fazer de conta que toda esta efervescência é insignificante ou inconsequente. E se nunca imaginei tais coisas; se mesmo agora custa-me aceitá-las; se não ignoro a turbulência das suas evidências, talvez seja porque quero continuar a acreditar na superioridade dos valores da liberdade, da democracia e no primado das escolhas pessoais, condicionadas idealmente apenas pelas próprias crenças e valores dos sujeitos da ação. O desmantelamento de vetores estruturantes das sociedades e a constatação de como o interesse financeiro comanda os seus quotidianos, fazendo com que o dinheiro seja a medida suprema de quase todas as coisas, não é uma paisagem bonita de se ver. Entre as pobrezas imagináveis, a pobreza democrática corresponde a perdas civilizacionais e não há dinheiro nenhum que pague tamanhos retrocessos. A menção anterior que fiz à centralidade das escolhas pessoais na construção da realidade, não tinha propriamente em mente qualquer dogmatismo, tão recorrente nos pensamentos que se sustentam em escolhas suposta e absolutamente livres. Essas já não me iludem. Só que as escolhas absolutamente livres são a utopia da democracia. Carecem de serem alimentadas e melhoradas, pois, tal não acontecendo, degradam-se, sendo bem provável que sejam gradualmente debeladas. O primado da racionalidade utilitarista, com correspondência numa conceção da ação humana simplificada, não tem em mim um seguidor ortodoxo, porque a meu ver abalroa os interesses e os motivos variados que integram o jogo das opções democráticas;ignora o caráter relacional entre os diversos e distintos atores;revoga os condicionamentos mútuos; mas o pior é que, a meu ver, por vezes também ilude-nos, saciando-nos com meras alegorias da liberdade e da democracia, sob o pretexto de estarmos perante a melhor das opções possíveis. Porém, a questão importante não é como eu vejo as escolhas, a liberdade e a democracia, mas que escolhas, liberdade e democracia estão neste momento disponíveis na Grécia, em Itália ou em Portugal. Quem as considera suficientes para reconverter as sociedades locais? No fundo, quem decide efetivamente por quem? Com que legitimidade democrática? Sobre esta matéria, permitam-me um único exemplo, que no entanto é cabal: 43 deputados da coligação grega, liderada por um administrador que não foi a votos, têm um processo de expulsão anunciado. Alguém sabe de que crimes são acusados, tirando o fato de refletirem a opinião de uma parte significativa de uma sociedade fragmentada e que agoniza nas mãos de um destino imposto desde o exterior? Começa a ser irrefutável: a financeirização do planeta, a perdurar nos termos em que se instalou nas últimas décadas e agudizou nos últimos três anos, colocará cada vez mais a democracia num estado letárgico e subserviente. O sistema que supostamente assentaria na contabilização da maioria das opções individuais, na liberdade de expressão, mas também no respeito pelas minorias, encontra-se debilitado e vegeta, subsistindo à conta dos biscates que lhe são concedidos. Que mais nos resta senão exigir e colocar a esperança na atuação de (renovados) poderes políticos, devidamente calibrados face aos desafios dos nossos tempos? Alguém mais pode estabelecer soluções compatíveis entre forças tão desiguais? Temo que se não encontrarmos respostas rapidamente, o mais provável é que deixemos de ter a oportunidade de continuar a fazer perguntas.

Ricardo Fabrício