Há dois anos que tenho o privilégio de trabalhar, na escola, com homens e mulheres notáveis, gente de todas as idades, cujos compromissos com os sonhos que têm para si e para os seus, me têm dado um extraordinário alento nestes tempos, confesso-o, tão difíceis. Assisto, às vezes impotente e revoltada mas sempre solidária e comovida, aos seus testemunhos que vão revelando quotidianos de dificuldades diversas, enfrentados com dignidade e coragem. Vem isto a propósito da muito justa homenagem que será hoje prestada a três homens justos, bons, honrados, corajosos e idealistas que viveram também sob o peso da opressão e do espectro da pobreza mas que não se conformaram. Antenor Cruz, Agostinho Silva Finezas e Domingos Abrantes, militantes comunistas, foram (e felizmente, no caso do último, ainda é) homens que como cada um de nós, recearam pelas suas famílias, inquietaram-se com o que tinham para pôr em cima da mesa, sofreram com a tentativa de descredibilização que os poderosos lançaram sobre si e, também à nossa semelhança, teriam preferido uma existência coroada de êxitos materiais e aplauso social mas ainda assim, convictos de que a dignidade não tem preço, levaram às últimas consequências a decisão de que as suas vidas contribuiriam para ajudar a derrubar a violência surda e infame da ditadura fascista, construindo um Portugal mais justo e livre. Lembrar estes três homens é prestar homenagem aos tais heróis e heroínas, mais ou menos anónimos, com quem partilhamos o dia-a-dia e a todos aqueles que saíram à rua no último dia 11 de Fevereiro e provaram que a união é uma força poderosa que derruba o medo e constrói o futuro. Viva Portugal!

Isabel Cardoso, Professora