Gil Canha O aterro em frente à nossa cidade é um falso problema, aliás, os principais responsáveis por este ardil monumental, foram o eng. Santos Costa e o dr. Jardim, personagens sobejamente conhecidas por nos brindaram com obras estapafúrdias e faraónicas, muitas delas semelhantes à Disneylândia ou a Bucareste, de Ceausescu. Até há bem pouco tempo, o regime jardinista tinha tantos recursos financeiros que bem se podia dar ao luxo de construir obras "abananadas" e supérfluas. Só que os tempos são outros e a actual crise não dá grande margem de manobra às quimeras infantis de Jardim. No entanto, e apesar do açaime de Vítor Gaspar, a obra do aterro continua vincadamente gravada na pequena ervilha solitária que orbita desamparada no interior do crânio do nosso grande líder. Os funchalenses imaginem que a nossa cidade não tinha a Pontinha, nem o Cais, e as ribeiras do Funchal tinham despejado todos aqueles inertes na nossa frente de mar no 20 de Fevereiro. Como é de conhecimento geral, a nossa deriva marítima (corrente) é predominante no sentido Ponta do Pargo/Ponta de São Lourenço, e esta espalharia esses inertes ao longo da costa, alimentando as praias da nossa baía, até ao Garajau, o que, de acordo com as leis da dinâmica costeira, seria a melhor defesa contra o avanço do mar. Ora, este fenómeno não ocorre, precisamente porque a nossa Pontinha bloqueia a chamada "deriva sedimentar" e cria uma bolsa de retenção a esses inertes no interior do porto (é por isso que os inertes ali se amontoaram). Assim, quando as praias não são "alimentadas", como é o caso da praia do Forte de S. Tiago, do Toco e do Lazareto, elas entram em deficit e "emagrecem", e ao emagrecerem ficam sujeitas ao avanço implacável do mar. É por isso, que se nota uma preocupante erosão/recuo das arribas marítimas nas zonas do Toco e Lazareto (o cemitério dos judeus já desabou, e a estrada e as casas situadas na berma desse alcantil estão ameaçadas), e também o Forte de São Tiago está em risco de ser levado pelo mar, pois a larga praia que ali existia há muito que desapareceu, como confirmam as fotos de finais do século XIX. As praias são como as pessoas, precisam de ser alimentadas. Um ser humano que não se alimenta, mais depressa fica vulnerável à doença, também uma praia de calhaus que deixa de ser alimentada pelos inertes transportados pelas ribeiras e pela queda de blocos das arribas, mais depressa fica indefesa perante o crescente avanço do mar. Deste modo, o aterro não é um problema, é uma dádiva, o que temos de fazer é simplesmente ajudar a natureza e espalhar esses inertes artificialmente ao longo da costa, até ao Lazareto. Só assim é que podemos ter uma costa defendida contra a erosão e contra o terrível efeito transgressivo do mar, fenómeno que afecta actualmente cerca de 80% do planeta.