Como acontece com quase tudo o que sofre alterações no nosso País, também a eliminação de feriados decretada pelo Governo gerou polémica. Apenas polémica, e não verdadeira indignação, como a que adveio de assuntos mais importantes, como as Lamúrias do Dr. Cavaco ou as Pieguices do Dr. Passos Coelho; ou de temas fracturantes, como o Novo Acordo Ortográfico; ou ainda de catástrofes naturais, como as derrotas do Sporting. Mas esta questão dos feriados não é de todo despicienda. Os argumentos que sustentam estas supressões são o aumento da produtividade e a maior competitividade da economia nacional. Nada mais falso. Estes factores não são mensuráveis pelo número de dias que os cidadãos descansam: a França tem 12 feriados oficiais, e ainda é uma das economias mais competitivas no seio da União Europeia. Já a Grécia, que dispensa comentários, também tem 12 feriados. Curiosamente, dois deles são o Dia da Revolução (25 de Março) e o Dia do Não (28 de Outubro), e os gregos levam-nos tão a sério que os têm vindo a celebrar todos os dias… O recordista de feriados nem sequer é um dos países ditos preguiçosos do sul da Europa, mas sim a pequena Estónia, que mais valia chamar-se Estroina, pois festeja 22 feriados!!! No pólo oposto, os circunspectos cidadãos do Reino Unido só ficam em casa por imposição oficial 8 dias por ano. Portugal estava no Grupo dos Treze (para além de também integrar o Grupo dos Tesos), na companhia da Dinamarca e da Polónia. Com o desbaste de quatro feriados, juntamo-nos à Bélgica, Espanha, Roménia e…lá está…à Alemanha. E será por esta via que a nossa economia se vai alcandorar ao nível exigido por Frau Merkel? Suponho que a resposta é "Nein". Outra questão polémica tem a ver com os dias escolhidos para abater aos "EFES" do calendário: o 5 de Outubro e o 1º de Dezembro. No primeiro caso, honra-se a Implantação da República, que há dois anos se tornou respeitavelmente centenária. Para muitos portugueses, com um batalhão de historiadores à cabeça, este acto "atropela a memória e a simbologia cívica" desta data, para além de configurar "um ataque ao direito ao lazer, que foi uma grande conquista histórica". Estou de acordo. No que respeita ao 1º de Dezembro, está a matar-se o Dia da Restauração. Ao contrário do que muitos possam pensar, não é um dia que se aproveita para frequentar restaurantes, mas antes a celebração da nossa Independência enquanto Nação. Não fosse a revolta dos nossos antepassados, que pôs fim ao jugo da Dinastia Filipina, e hoje provavelmente ainda andaríamos todos a tocar castanholas e a comer "paella", olé! Mais de 80 países celebram a sua independência com um feriado oficial, e nesse lote incluem-se quer os insuspeitos Estados Unidos e Suíça, quer os pequenitos Barbados e Tuvalu, passando pelos Camarões e pela Gâmbia (se calhar comem marisco para comemorar?). Não me parece correcto eliminar um feriado desta grandeza histórica. O nosso Governo poderia ter ponderado a extinção do 1º de Maio, por exemplo. Pensando bem, faz sentido não trabalhar no Dia do Trabalhador? Ou o 25 de Abril - o maior tributo à Liberdade é fruí-la todos os dias, exercendo essa inalienável conquista com responsabilidade. Para mais, é um feriado novo de 38 anos, longe dos quase 372 anos da Independência. Mas não, uuiiii, caía logo o Carmo e a Trindade, e só não caía também o Bloco de Esquerda…porque já caiu nas últimas eleições. O camarada Arménio Carlos convocava logo uma semana de greve geral. Fosse pelo medo das consequências ou por não querer afrontar o PS, que ao que consta ainda lá tem algumas pessoas influentes que são de Esquerda, o Governo da República acabou com a comemoração oficial da dita, com a agravante de lhe juntar o corte no nosso Dia da Independência. E os indignados deste País estão furiosos porque lhes querem tirar a tolerância de ponto no Carnaval? Mascarados já andamos todos, há muitos, muitos anos…

Raul Ribeiro