A expressão "pés de barro" significa algo frágil, inconsistente. Certamente seria uma injustiça da minha parte, aplicar a frase ao tal sucesso da Madeira nova, nem eu tenho a categoria para fazê-lo da forma como fez Ângela Merkel! Mas posso caminhar com estes mesmos pés frágeis e inconsistentes, pelo nosso panorama desportivo. Reconheçamos que ao longo das últimas três décadas, muitos títulos, muitos internacionais, muitos olímpicos, muitos atletas, criou a política desportiva levada a cabo pelo Governo Regional. Havia dinheiro e tudo era fácil. Mas, como não há fartura que não dê em miséria, eis que chegamos a um ponto em que poucos acreditavam. Não há dinheiro para viagens, atletas sem salários, equipas a suspender actividade, faltas de comparência, ameaças de encerramentos de clubes, dirigentes com a cabeça a prémio. Fica a sensação que os êxitos alcançados, não tinham consistência, eram frágeis, tipo "pés de barro". Faltou uma política desportiva assente na coerência e nos pressupostos de um investimento sustentável e com objectivos concretos a longo prazo. Houve equipas a mais nos nacionais, houve apostas em modalidades com pouca implantação popular, houve demasiadas contratações sem retorno na formação, houve estádios de futebol a mais, enfim, houve milhões de euros mal gastos! Deu-se luz verde a dirigentes desportivos sem formação e sem competência para lidar com dinheiros públicos! Desbaratou-se a torto e a direito, só porque havia dinheiro fácil. Nunca se pensou no amanhã que é já hoje! Agora andam todos aflitos, Governo e dirigentes! Ambos têm culpa na situação. O Governo, porque optou sempre por alimentar o monstrinho que dava votos. Os dirigentes, porque lidavam com verbas que não lhes custava a ganhar e se calhar não olhavam ao rigor na aplicação! Não faltaram alertas ao longo dos anos para o despesismo desportivo! Ninguém levou a sério! Pois não…até à chegada desse trio maldito chamado Troika! Agora, é reconhecido o tal despesismo. Agora, fala-se em cortar nos apoios e repensar a política desportiva! Mas já vai ser tarde e os resultados estão à vista. Não há dinheiro, não há dirigentes e quem quer ser dirigente sem dinheiro nesta terra do subsídio? Criaram-se maus hábitos pelo dinheiro fácil e agora é difícil a cura! Mas não há tempo a perder. É imperioso tomar outro rumo. Do Governo exige-se mão firme! Exige-se o cumprimento dos acordos atrasados, mas não se admite repetir erros do passado!
Mário Gouveia, Jornalista