Há dias um amigo enviou-me um mail com uma reportagem feita pela SIC. Num tempo em que os gurus do capitalismo ultraliberal que nos conduziu à actual situação de crise generalizada e que insistem nas terapias que tiveram na origem da doença, ou seja, a desumanização do trabalho, a especulação financeira, a prioridade em garantir o capital e o lucro dos banqueiros em vez do financiamento da economia, a flexibilização das leis laborais, para despedir facilmente e assim, dizem eles, viabilizar as empresas, etc…, uma pequena empresa de Palmela tem outra filosofia, digo eu, outra ideologia nada ultraliberal e, curiosamente, bem mais próxima da doutrina social da Igreja. Então, assim de rompante, esta empresa que distribui lâmpadas, fornece aos seus 24 funcionários gratuitamente almoços, águas, cafés, pastilhas elásticas, aulas de inglês e massagens. Todos têm seguros de saúde e aqueles cuja função justifica têm carro e telemóvel da empresa. No último natal receberam o respectivo subsídio por inteiro e a empresa assumiu a diferença devida ao Estado. Espantoso não é?! Mas há mais. De três em três meses o empresário distribui os lucros pelos 24 funcionários o que lhes permite ter mais 4 salários por ano além dos subsídios de natal e de férias, ou seja, 18 salários por ano. Muitos diriam que a empresa não tem futuro mas ela já existe há 18 anos e, espanto dos espantos, gastar como gasta com os funcionários, a empresa não tem dívidas e paga a tempo e horas a todos os seus fornecedores. E imaginem só que de vez em quando todos os trabalhadores vão ao Estádio da Luz ver o Benfica jogar e não pagam bilhete… é a festa total. É claro que o empresário diz com muita satisfação que quando precisa de um voluntário tem 24 disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite e em qualquer dia da semana. Afirma também "dizem que lá fora há crise". Greves, manifestações, revindicações e outras confusões não existem. Falta de produtividade e absentismo é coisa banida há já muito tempo. Porque é que há dinheiro e a empresa continua em franco crescimento? Basicamente porque quem gere valoriza o trabalho e sabe que sem ele o dinheiro é insuficiente só por si para viabilizar um projecto. O investimento no trabalho e no trabalhador é a garantia primeira do sucesso. Não é pelo facto do empresário fazer este investimento e não meter ao bolso aqueles lucros que trimestralmente distribui pelos seus funcionários que a crise chegará àquela casa. Este é um exemplo bem real de que os problemas só se resolvem com justiça e equidade. O egoísmo ganancioso de grande parte dos empresários e dos banqueiros aliado à corrupção é o verdadeiro responsável pela crise actual e não a falácia da improdutividade dos portugueses. Estes 24 funcionários são a prova provada que os cortes salariais, a austeridade, o despedimento não são fatalmente necessários para sairmos da crise e quando o trabalho é justamente reconhecido e valorizado todos os trabalhadores podem ser alegremente produtivos. Uma revolução de mentalidades é o que se precisa.

Paulo Santos