Já recebeste, Jonas? - Não, há dois meses que o sal ainda anda (anda?) atrasado. Não, e estou com pena do patrão. - E o patrão, Jonas, já recebeu? Não, está à espera que outros recebam. - Gostas do patrão? - Gosto, se me conta estas coisas. É depressa, fico logo em vale de lágrimas. Exaspera pela pensão dos pais. Diz: o cheque vem pelos Armas do ar e nem assim é mais rápido que a barca! Para quê a pressa, que é da Madeira, como disse o outro que ainda não percebeu que vamos chegar ao natal na mesma hora? A mãe costumava catar-nos. Não lhe escapava um piolho! E agora sou eu que a cato, àquele cheque de pensão. E tu, já recebeste? - Já, mas é subsídio; sabes como é, o gajedo das artes não vive de salários que alguns têm por a gente existir. - É o mesmo! - Não dá é para pôr as galinhas a bicar no sítio em vez de na terra à procura do grão, nem para os chips dos grades... - Olha, a minha mãe não tinha mãos para as lêndeas e catávamo-nos em fila. Do melhor que espremi na vida. Agora, pagava em lêndeas para ser receber. Fome... - Somos lenda, não gosto é de perder um dos nossos para me manter vivo... Então e a Chanceler, Jonas? - Prefiro seguir por outras estradas mais generosas: tu viste o que disse o júri da Alvar Aalto sobre a obra de Paulo David e o que este último nos ofereceu? - Estou em silêncio; preciso, é, de agradecer a Paulo David por nos dizer que a medalha converge neste lugar que é a Madeira, na gente! Que partilha; que bondade e bombardeamento, como há muito não escutava, estonteante e raro. E lá fomos (patrão, Jonas e eu) pelos belos furados (túneis para Merkel), de tatra, não de carocha, para PARAR em todos os belos contratempos desta ilha: no AmoTeatro'12, no Teatro que fazemos e nos mirantes que nos põem sozinhos a ter fogo a mais e egoísmo Golias a menos.
Élvio Camacho - Actor