F oi o nome por que ficou conhecido um grupo de "rapazes" economistas chilenos que, baseados nas doutrinas económicas do Dr. Friedman (da Universidade de Chicago), determinaram a política económica do governo de Augusto Pinochet, facínora que chegou ao poder através de um golpe de estado sanguinário, que derrubou o presidente Salvador Allende. Este golpe de estado foi tutelado pelos EUA, que, em plena guerra fria, não admitiam na sua zona de influência a presença de um governo social democrata democraticamente eleito. A imposição, através da mais atroz repressão, das doutrinas neoliberais foi designada pelo Dr. Friedman por "milagre económico do Chile". Deste modo e pela primeira vez foi testada, na prática, a doutrina económica do Dr. Friedman, antecipando em cerca de 10 anos a sua aplicação sistemática na Inglaterra pela Sra. Margaret Thatcher e, nos EUA, pelo Sr. Ronald Reagan, ambos de má memória, no que concerne aos direitos vigentes dos cidadãos a nível de saúde, segurança social, etc. Esta doutrina foi durante a segunda metade do Séc. XX, largamente implementada pelas várias ditaduras de extrema direita nas Américas Central e do Sul. A doutrina do Dr. Friedman tem por instrumento de eleição o "choque económico", aplicação à economia de experiências da CIA nos anos 50 e que consistiam, na sua génese, em "lavar o cérebro" das pessoas através de choques elétricos. Depois das pessoas estarem despersonalizadas, fácil se torna a aceitação doutras ideias que, se assim não fora, seriam rejeitadas. Nos nossos dias, e em democracia, os Chicago Boys não tem a vida tão facilitada como no século passado, já não chegam ao poder pela força das armas, mas com "falinhas mansas" e promessas de não aumento de impostos, de recusa ao corte do Subsídio de Natal, etc., enfim, de todas as que assistimos nas recentes eleições. Os choques económicos, nos nossos dias já não se fazem com golpes de estado nem com eletricidade (as ditaduras tradicionais saíram de moda). Hoje tudo é mais subtil, optando-se pela dramatização enfática da realidade, pintando-a de um negro tão escuro que as pessoas aceitam com algum alívio o facto da realidade ser só negra e não negra escura. Bom exemplo disso foi a campanha do governo que, usando todos os meios à sua disposição, tentou vender-nos a mistificação da absoluta necessidade para o país de trabalharmos mais 1/2h por dia, o que, manifestamente, não interessava a ninguém como foi publicamente afirmado pelas associações patronais. O governo utilizou essa mistificação para depois a apresentar como magnânima cedência em contrapartida à imposição da flexibilização (sem segurança) das causas para despedimento. À "pala" de situação calamitosa das finanças públicas, o governo impõe como inevitável a aplicação "by the book", a todos nós, da doutrina neoliberal do Dr. Liedman e dos Chicago Boys. Vai, se tiver oportunidade, aplicar essa política a todos os aspetos da nossa vida, das escolas aos hospitais e às forças de segurança. Vai desregular procedimentos e preços, vai precarizar direitos civilizacionais, como o direito a um horário diário de 8 horas, vai criar hordas de desempregados porque assim baixa o valor do trabalho. Recentemente senti na minha própria pele o que considero um bom exemplo do que acabo de afirmar: administração de uma instituição de Ensino Superior propôs-me diminuir o meu pagamento hora para metade porque alegadamente a administração estava atenta e argumentava que a universidade A e B (privadas), já o tinham feito. Felizmente a minha situação profissional permitiu-me mandar a dita instituição "à fava", o que não aconteceria se, por exemplo, estivesse desempregado. Temos de estar preparados porque medidas como esta surgirão em catadupa. Não estranhem que esta gente, depois de ter acabado com o subsídio de férias, queira também acabar com as férias pagas, uma vez que, para um neoliberal, é um absurdo ter de pagar a um indivíduo que está de férias e por isso não trabalha. Na democracia há lugar para todas as ideologias, até para os neoliberais ferozes; contudo, quando estes se fazem passar por sociais-democratas, deveriam ser presos por burla ou, no mínimo, por publicidade enganosa. Salazar, no seu tempo, ao contrário dos ventos do mundo e da história, declarava-nos "orgulhosamente sós". A versão atual desta postura é a de que "não renegociamos a dívida".
Helder Melim