Antes que se façam leituras erradas, o título deste artigo é de um filme de Sofia Copolla e "Lost in Translation" pode ser entendido como uma expressão que traduz aquilo que se perde quando é feita a tradução de uma língua para outra.

Em português, curiosamente, o título do filme foi traduzido para "O amor é um lugar estranho". E é de estranheza que se quer falar neste artigo e, quem sabe, de amor.

Vem isto a propósito de uma semana em que os problemas de tradução estiveram na ordem do dia. Primeiro Angela Merkell criticou as opções de desenvolvimento da Madeira, e depois Martin Shulz criticou as opções de negócios de Portugal com Angola. Mais tarde, pela própria voz ou pela voz de outros, foi feito um esforço para explicar que o que se disse não foi bem o que se disse, e que tudo não passou de uma má tradução. Que afinal gostamos muito uns dos outros, que até aplaudimos os negócios e as opções de desenvolvimento que cada um faz. É amor, em suma, o que nos une e só a tradução é que nos separa.

O mundo é realmente um lugar estranho e a política europeia uma Babel sem tradução simultânea. Aqui reside, tragicamente, aquilo que verdadeiramente instaura a impossibilidade de qualquer entendimento ou união. Somos estranhos uns para os outros. Debaixo de uma mesma união económica e monetária artificial, a nossa identidade é ainda de estrangeiros. Somos, à vez, o 'outro', o estranho, o intraduzível.

Aqui não está em causa a razão ou não que assiste às declarações que foram produzidas, mas sim algo de mais profundo: essa incapacidade de funcionarmos como um todo, onde as diferenças sejam encaradas como marcas individuais e não como aberrações intransponíveis.

Mas esta confusão de tradução e de entendimento também denuncia essa Europa ainda sem rumo definido, refém de declarações e decisões avulso, entregue a problemas de tradução profundos, que vão além da língua.

Ainda nos dividimos entre Norte e Sul, entre países de sucesso e povos estranhos e condenados ao fracasso. Ainda somos essa 'Jangada de Pedra' de Saramago que, se por um acaso de ficção, fosse separada da Europa, apenas iria motivar uma grande discussão sobre de quem era a terra de ninguém que tinha ficado no vazio, naquele exacto ponto de corte.

Por vezes, fica a impressão de que nenhum homem deveria unir aquilo que a cultura separou durante séculos, sob pena de nos perdermos, para sempre, na tradução e sermos eternamente um lugar definitivamente estranho.

Posto isto, qualquer coisa que tenha ficado por dizer ou que não se entenda, perdeu-se na tradução....