Merkel não quis ofender a Madeira. Quis apenas concretizar a ideia de que os fundos estruturais não estimulam necessariamente a competitividade. Para tanto, deu o exemplo de uma Região que, apesar da insistência da aplicação dos fundos em infra-estruturas e obras públicas, perdeu auto-suficiência e teve de pedir ajuda externa. A afronta nas declarações não está, por isso, no conteúdo (que é um facto), mas na atitude. A Chanceler é praticamente o único líder europeu com poder. O Reino Unido lavou as mãos, com o compreensível pretexto de a coisa não se chamar "crise da libra". Sarkozy, quase contagiado pelos juros, parece apoiar-se em Angela como um bêbado num poste de luz - mais para apoio do que para iluminação. Em dias em que o primeiro-ministro de Itália - o número 4 - foi deposto com um telefonema, não será exagero dizer que os outros não contam. É por isso que a crítica é um paradoxo. Por má que seja a política comunitária, e independentemente da produtividade dos alemães, o Euro permitiu à Alemanha um período de crescimento notável e contra-cíclico. Angela age como se esse fosse o interesse e herança última do seu mandato. A ironia está aqui, e resulta, sobretudo, de um problema de percepção. O propósito da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, antecessora da União, foi precisamente o de vincular as indústrias "bélicas" dos vencedores e vencidos na II Guerra, de molde a tornar as suas economias interdependentes nessa matéria. O crescimento económico era uma prioridade, mas o objectivo primário da União foi sempre o de evitar a guerra, assegurando que o problema de um fosse um problema de todos. De momento, o problema de todos não é um problema de Angela. A Chanceler olha para a Europa e vê vários focos de perturbação, a expiar e purgar com austeridade. Quando declara a má aplicação dos fundos estruturais, ilustrando com os resultados de uma Religião ultra-periférica falida de um País periférico falido, Merkel desresponsabiliza-se tanto pela origem da crise como pelo futuro da construção europeia, que está na presença de um impasse subtil. Todos vêem o défice democrático quando a Alemanha intervém na Grécia, mas nem todos se predispõem a vê-lo subvertido - no facto de Angela, que intervém na Grécia, ser eleita e responsabilizada por pessoas preocupadas com a Alemanha, que ainda não sentiu a verdadeira extensão da crise. A Europa está como um carro em derrapagem. Por pouco instintiva que seja, a solução está em virar contra a curva e acelerar. O próximo passo é criar interdependência financeira, até porque já existe interdependência económica. Só assim seremos mais fortes do que o nosso elo mais fraco. No entanto, Angela prova, vez após vez, que não tem a coragem ou a visão de sacrificar a condição de elo mais forte da Alemanha (e a sua carreira política pessoal) no curto prazo em troca dos efeitos benéficos duradouros do aprofundamento de uma Europa capitalista, liberal, democrática e pacífica. Merkel não tem esse Kohlibre. Não está à altura de ser aquela que é imune aos telefonemas. Uma líder. E esse é que é o principal problema de fundo estrutural da Europa. Não são uns túneis na Madeira.

Pedro Fontes