No início era a demagogia. No Verão do ano passado, era a intriga fácil, a proposta irreal, o jantar oferecido com molhanga a cair pelo beiço abaixo misturada com zurrapa de tinto e bolo do caco. Para a maioria dos madeirenses isso bastava. E todas as críticas eram inveja da Oposição e de Lisboa. Isso era no início. Depois, veio a ameaça séria. Mesmo antes das eleições, partidos grandes e pequenos e até as amostras de partidos, alertaram para o que aí vinha. Ninguém no Poder ou no partido do Poder acreditou. Hoje, o susto é geral e parte do que vinha já veio e o resto virá até ao final do ano acompanhado por um cheque chorudo que tem o mesmo sabor de uma penhora ou da venda do ouro da família; ninguém se orgulha disso. Vem este paleio a propósito da nossa situação actual. Segunda-feira passada disse-me um comerciante, que outrora teve sucesso no Funchal, que nunca imaginou que fosse verdade o que ouviu dizer antes das eleições. Que a crise já cá está como nunca; que teve de despedir funcionários; que tem dias inteiros em que vende menos do que vendia antes apenas nas partes da manhã. Estava irado, desiludido, mas consciente da mudança e da falta de soluções para esta derrocada da falta de verbas. Curiosamente, não temos dinheiro para mais obras; mas temos para o presidente voltar a viajar em segredo. Não temos dinheiro para aquecer a água das piscinas; mas temos para festas, mesmo sem o visto do Tribunal de Contas. Não temos dinheiro para uma botija de gás numa escola; mas temos para mandar escrever, nessa mesma escola, a letras grandes ‘Escola Dr. Eduardo Brazão de Castro’. Não temos dinheiro para pagar a fornecedores nem para medicamentos prioritários; mas temos novos e bons carros para serviços domiciliários. Não temos taxas moderadoras; mas teremos taxas de racionalização da saúde. Não temos portagens; mas teremos o maior aumento de impostos sobre combustíveis de que há memória. Não temos um milhão de euros para ao Naviera Armas; mas temos quase quatro milhões por ano para o Jornal da Madeira. Não temos dinheiro para fazer lares para a terceira idade; mas tivemos para semear pavilhões, ginásios, estádios, campos e campinhos de brincar. Não temos dinheiro para pagar a jogadores de pequenos clubes; mas temos atletas internacionais a viver cá de modalidades onde quase não há madeirenses. Não temos onde andar a pé nas zonas altas do Funchal; mas temos promenades vazias onde não vive quase ninguém Não temos dinheiro para a promoção turística; mas temos um governo que chama cubamos aos continentais e ignorante à Merkel (mesmo que o seja, de facto). Não temos um milhão de euros para manter as urgências nos centros de saúde do Norte e da Ribeira Brava; mas temos ainda alguns milhares para distribuir por clubes e associações cuja primeira finalidade é justamente essa: deitar a mão a uns milhares para manter o pequeno poder em que se passeia muito dirigente. Não temos dinheiro para fazer umas simples varandinhas nas ruas 5 de Outubro e 31 de Janeiro, para repor o que de lá foi arrastado no temporal de 20 de Fevereiro de 2010; mas temos 20 milhões para voltar a enterrar na marina do Lugar de Baixo Em resumo: não temos solução para o mais básico exercício da governação mas quem nos manda já começa a ensaiar o número seguinte, aquele do: “foi por culpa da crise mundial e de Lisboa que ficámos assim”. Essa desculpa já foi engolida por milhares antes das eleições. Neste momento será mais difícil, mas a cegueira ainda anda por aí. Pelo menos até meados de Abril. E mesmo depois da derrocada, muitos madeirenses vão deixar-se levar por paleio eleitoral embrulhado num discurso fechado com um nó cego. E grande parte de nós... cegos!