O "culto do artista" é um fenómeno relativamente recente. Data do século XIX esta ideia que as pessoas dele fazem. Até aí, a aristocracia a modos que "era dona" do artista uma vez que o contratava por longos períodos para que este criasse e ficasse esta detentora das suas criações. O artista era assim um mero assalariado tratado como todos os outros: numa relação de poder/vassalagem. Com a revolução francesa dá-se a libertação do artista e assiste-se aos primórdios da democratização da cultura como objecto de usufruto geral e acessível a todos. Estes criadores surgem aos olhos da maioria como excêntricos ganhando o nome de boémios. A sua emergência no século XIX numa Europa a dar os primeiros passos rumo à industrialização coincide com o surgir de uma classe média pujante desejosa de status social. Assim, para muitos, quem se dedica às artes tem uma certa veia de estroina… gosta da noite, de andar nos copos, de frequentar sítios de má fama ou pelo menos de fama duvidosa. Se para alguns isto cria algum fascínio, para outros representa algo de perigoso, de satânico. Se é na noite que se encontra com os seus pares é, muitas das vezes, porque durante o dia tem que exercer actividades mais corriqueiras para poder sobreviver. Resta-lhe então a noite para poder trocar experiências e conviver com quem, como ele, partilha os mesmos gostos, os mesmos anseios. E não é também a noite mais inspiradora? Se numa mesa se solta uma guitarra, numa outra grita uma voz, e do fundo solta-se um poema enquanto alguém mostra os últimos riscos que traçou. E é nesta partilha que se aprende mais um pouco, que se alargam os horizontes, que nos integramos e procuramos fazer parte. E é verdade meus amigos, na Madeira há sítios onde isto acontece, por vezes às claras e só não vê quem quer. Ainda ontem na Zona Velha aconteceu Zonart.

Nuno Morna, Actor