Hoje, a avaliação que fazemos da política não é feita com os mesmos critérios do passado. Tudo parece jogar-se na espuma dos dias; incluindo o nosso bem-estar, as nossas esperanças e desilusões. Os governos mudam estratégias em função das reacções do momento. O que ontem era verdade, hoje é mentira. O que ontem era impossível, hoje é a verdade nua e crua. O dinheiro, transformou-se, mais do que nunca, em algo virtual. O poder dos países mede-se na flutuação dos mercados. Ninguém parece controlar o destino. Olhando á nossa volta recordo o que nos disse Philippe Delmas a propósito da modernidade da acção do Estado: " A acção europeia do Estado deve voltar a descobrir a sua força e a riqueza da sua tradição." Para isso a importância de um Estado que seja, não autoridade de gestão, mas garante de uma visão de conjunto, não providência mas " o senhor do tempo" preocupado com o equilíbrio interno das sociedades e com o equilíbrio do homem. Daí a orientação que sempre assumi, abertamente, e se traduz na afirmação de um pensamento crítico, que tenta interpelar o real sem esconder a sua inquietação - enquanto académico e enquanto cidadão - sobre o sentido da mudança, os valores da justiça social e o futuro da democracia. Aliás, no momento em que os madeirenses, e os portugueses em geral, são confrontados com um conjunto de fortes medidas de austeridade devido à situação de eminente colapso das nossas finanças é indispensável lançar um olhar crítico e reflexivo no sentido de aprofundar o conhecimento sobre os problemas, contradições e dilemas em que nos encontramos e que são, no fundo, os problemas, bloqueios e perplexidades que afligem a sociedade no seu todo. Vem isto a propósito da situação económica e social que se vive na Madeira. Algo que não pode ser ocultado na medida em que não só exige a nossa atenção como pela dimensão do sofrimento que envolve. Quem olhar atentamente, por exemplo, para as populações de Câmara de Lobos e de alguns sítios da cidade do Funchal não pode ficar indiferente com a pobreza evidenciada. Ainda a crise mal se evidenciou e já uma parte significativa da população madeirense sofre na carne os resultados de políticas irresponsáveis e de medidas inoportunas. Quando na semana passada o grupo parlamentar do PSD- M veio propor a criação, na Região, de um Banco Alimentar Contra a Fome e torna evidente uma situação de carência alimentar de parte significativa da população madeirense mais não podemos dizer que a hipocrisia e a ocultação são formas duríssimas de tratar quem mais merecia ver protegidos os seus meios de subsistência e as liberdades - os mais pobres. Quando ao longo destes últimos anos, com o agravamento da situação social, algumas entidades pediam apoio do Governo Regional para a criação de um Banco Alimentar e a recusa era reiterada por desnecessária e lesiva da imagem da Região mais não se fazia que manifestar um preconceito sempre evidente nesta forma de governar. Os grandes excessos de Alberto João Jardim levaram ao estado em que nos encontramos. O tipo de desenvolvimento seguido na Região ignorou que mais do que betão existem homens e que são os grandes erros que fazem soçobrar os Estados ou Regiões. Quando se questionava Alberto João Jardim como é que ia financiar tanta obra pública, sem produção de riqueza, a correspondente resposta era constantemente a mesma: "A obra está cá". Durante 35 anos a resposta foi a mesma e os resultados estão à vista. Na Região já não há outro rumo privilegiado se não o de cada um. A caravana debanda e acusa o chefe. Inspirador da orientação e seu defensor, o governo da região decepcionou mais por excesso de promessas do que por falta de acção. Tal como numa sociedade primitiva a resistência da crise às medidas e aos sortilégios públicos desacreditou o feiticeiro e fez nascer a suspeita de uma usurpação. De entre os agentes políticos, demagogos por um lado e corruptos por outro, fica-nos a ideia de como os cidadãos vêem o Estado e a sua função e esta passa ao lado do que é essencial: proteger os desfavorecidos e vigiar os poderosos. Mesmo quando se apelava aos valores universais para proteger os direitos dos pobres a resposta que sempre se obteve dos responsáveis políticos foi a incúria, o disfarce e a negação do que já era evidente - o Estado clientelar tinha roubado o espaço do Estado regulador. Esta crise em que a Região caiu irá encurralar as pessoas num ciclo vicioso de privação, insegurança, exclusão e impotência silenciosa. Como solução para o flagelo que se adivinha é indispensável dar às vítimas da pobreza as ferramentas necessárias para reivindicarem os seus direitos fundamentais e serem responsáveis - em vez de vítimas do seu destino. Lutar contra a pobreza na Região é uma questão que diz respeito a todos e porque é preciso dar voz ao que não têm. Se alguma vez me arrependi de ter razão foi na luta contra a pobreza na Região porque as vitimas deste flagelo são mais importantes que a vanglória de ter tido razão. Gostaria no entanto que me ouvissem porque acredito que, independentemente de tudo aquilo que possa suceder, e das soluções económicas, políticas e jurídicas que venham a ser encontradas, o pleno respeito pelo direito dos pobres é uma constante. Porque acabar com a pobreza é ganhar liberdade.

José A. Roque Martins