Artº 28º da Declaração Universal dos Direitos do Homem «Toda a pessoa tem o direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciados na presente Declaração». Começo, digamos, por uma 'declaração de interesses': sou de 47, nasci em Portugal. Pertenço, por isso, a uma geração a seguir à II Guerra Mundial e que cresceu num país que, ainda que oficialmente não se tenha envolvido no conflito, subscreveu ('adoçando-o', embora) o essencial da ditadura. Um regime de corrupção e distorções sociais, que renegava os princípios da soberania do povo e da igualdade entre os cidadãos; da emigração forçada, da agricultura abandonada e miserável, da pesca em condições sub-humanas, de fábricas onde os operários eram explorados e não tinham direitos; da Escola para os mais ricos e de exclusão de saber para os outros. Um regime do medo, da opressão e da ausência de liberdade. Um regime que manteve uma criminosa guerra colonial onde indiscriminadamente morreram milhares de soldados portugueses e combatentes dos movimentos de libertação; que não respeitava ninguém e matava sempre que necessário sem hesitações. Entre tantos outros, aí estão Dias Coelho, Humberto Delgado, Ribeiro Santos. Um regime que alimentou, até 1974, perseguições e caça aos seus opositores. Peniche, Caxias, Aljube, Tarrafal (também chamado de Campo da Morte Lenta) são alguns exemplos de prisões políticas de então. Pertenço, portanto, a uma geração para quem História, Memória colectiva, Democracia, Liberdade, Solidariedade, Direitos, Deveres, não são só palavras. São princípios. São formas de vida. São 'não saber estar de outro modo'. Tudo isto me sacudiu violentamente quando, no passado domingo, leio duas notícias. A manchete do Público «Jovens são os que menos se preocupam com as dificuldades dos pobres» e que se alargava no interior pelas conclusões de um trabalho do Instituto de Ciências Sociais, chocou-me: Aqui chegámos? Foi isto que, colectivamente, soubemos dar aos nossos filhos? O salve-se quem puder, o olhar para o próprio umbigo e as próprias dificuldades, como se aí estivesse o centro e o essencial do mundo? A ausência de solidariedade justificada pela precariedade? Mas por um acaso as dificuldades e a precariedade estão limitadas aos mais novos? Para aqueles que trabalharam toda uma vida e que estão hoje sem esperança nem solução, a vida não é ainda pior? Não temos a obrigação ética e moral de, pelo menos, ser solidários - em vez do desumano 'que se lixe'? Por outro lado, uma pequena nota da Visão «Na Alemanha (…) um em cada cinco jovens entre os 18 e os 30 anos não tem ideia do que ocorreu nos campos de concentração» fez-me pensar em quantos dos nossos jovens saberão o que acontecia nas prisões políticas em Portugal? Quantos saberão, sequer, que há de 40 anos havia prisões para onde se atirava quem lutava por pão e por direitos? Ou pensarão que a sociedade em que vivemos, apesar de todos os seus defeitos e deficiências, caiu do céu aos trambolhões e que não foi preciso lutar por ela? Que nos últimos anos 60 os povos da Europa não têm sido atingidos pelas tragédias da guerra porque… Saberão medir o valor da paz? Onde é que errámos? Como é que não soubemos perceber a importância das conquistas e nos iludimos que, depois de adquiridas, tudo eram favas contadas? Não compreendemos que o mundo ia por caminhos perigosos: a actual situação está a penalizar ainda mais os já demasiado desfavorecidos, privilegiando o grande capital. Como é que, enquanto sociedade e colectivo, levámos os nossos jovens a pensar que o mundo já não tinha dificuldades intransponíveis? Que eles não tinham mais nada para fazer senão ir vivendo, sem esforço nem empenhamento de maior? Temo que os tenhamos empurrado para a necessidade de começar tudo de novo (quase que a partir do zero) agora que tempos muito duros ameaçam cair-lhes em cima. Mais que de «Opinião», este é um texto de «Dúvidas». Mas que precisamos dedicar-lhes muita atenção e procurar respostas urgentes, lá isso precisamos. Será, porventura, a tarefa prioritária. Digna da geração que fomos. Da geração que ainda somos.
Violante Saramago Matos