Confesso que me mexe com o sistema quando as rotinas de anos e anos sem fim, continuadas sob o pretexto confortável do "sempre se fez assim" e da protecção burocrática, cristalizam a adaptabilidade e embargam a criatividade e a competitividade. Sem entrar em histerismos, naturalmente respeitando a experiência, os líderes, chefes ou dirigentes permitirem-se questionar, de vez em quando, metodologias, revisitando objectivos, avaliando resultados e atrevendo-se a sentir oportunidades, não ajudaria a trazer soluções criativas às empresas e às instituições? Confesso que me mexe com o sistema quando determinados produtos e serviços promovem-se comunicando de forma muito semelhante à do vizinho, dos concorrentes, utilizando o jogo, aparentemente mais seguro e sem risco, da repetição ou da vulgar adaptação. Sem entrar em histerismos, naturalmente respeitando a genuinidade das características do seu produto ou serviço, escutando atentamente os seus públicos-alvo, não teriam mais sucesso se arriscassem na diferenciação? Confesso que até me mexe com o sistema este modelo de CV europeu que desde há uns anos, muitos jovens adoptaram para se apresentar ao mercado de trabalho. Todos iguais na forma como hierarquizam as suas competências, como se de um uniforme se tratasse. Sem entrar em histerismos, naturalmente respeitando as regras de construção de um bom currículo, não deveriam os jovens procurar destacar-se da multidão de candidaturas que chegam nos nossos dias aos potenciais avaliadores? René Descartes, esse pensador do século XV, pai do racionalismo, e que defendeu a tese de que a dúvida era o primeiro passo para se chegar ao conhecimento, escrevia que "ninguém pode conceber tão bem uma coisa e fazê-la sua, quando a aprende de um outro, em vez de a inventar ele próprio". Confesso que me mexe com o sistema - a mim, e certamente a muita gente -, a opção de seguir o trilho mais fácil! E não sei se estamos a falar de criatividade, de coragem, ou de ambas.
Fabíola Pereira, Gestora de Marketing