
Não nos deixais cair em tentação tal como a Grécia. Esta parece ser a oração do momento dos governos de Portugal e Irlanda. Para fugir do purgatório europeu, Vítor Gaspar até tira o jantar a 10,6 milhões de almas. Mas nem por isso deixamos de acordar com outros tantos milhões… de dívidas: aquelas que no passado não cortámos e aquelas que estamos agora a contrair, com a respiração sustida, para tapar buracos. Sem mestria, aptidão ou estatuto próprio para negociar. Para acordar melhor.
Ontem, o ministro das Finanças português voltou a confundir-se com o secretário da tecnocracia europeísta. Disse que está mais empenhado em alcançar a estabilização da zona euro e o sucesso da implementação do programa de ajustamento económico e financeiro do que saber se Portugal irá ou não beneficiar da extensão de prazos e do período de diferimento de juros. Ele, que não propôs a negociação de uma casa decimal sequer nas vezes que engoliu, orgulhosamente só, os elogios do Eurogrupo. O nosso ministro ‘Bruxelista’, obcecado pelo seu manifesto de auto-mutilação económica-social para tirar do pântano as contas públicas, não está interessado em obter um dividendo que seja do cumprimento das nossas obrigações, em todas as vezes que se tem acendido a ‘luz verde’ das tranches - a última no valor de 2,5 mil milhões de euros, para chegar ao Palácio de Queluz no conturbado mês de Janeiro.
Não somos como a Grécia, é verdade, mas também não somos irlandeses. Não há cá contos de duendes, apenas contas de somas subtraídas. Somos uma nação servida por uma administração pública detentora de um apetite voraz que, em pouco mais de três décadas, inchou até ‘ganhar’ uma obesidade quase mórbida. Hoje, decide-se pagar para meter uma banda gástrica mas a ‘máquina’ continua gulosa e gasta-se o mesmo para lhe dar de comer. Chegou-se à era da insustentabilidade. Os salários e prestações sociais pesam já 70% da despesa do Estado. Não somos gregos, mas há dois anos que nos vemos gregos para pagar a quem trabalha. Hoje, olhamos-nos ao espelho e vemos reflectida uma figura franzina, lisa e enfezada, mas insistem nesta auto-condenação colectiva, como se andássemos todos por aí empandeirados de tanto comer.