Há semanas vi na televisão (Ponto Contraponto, Pacheco Pereira, SIC/Notícias) que, para além da conhecida sabedoria, a coruja é também o símbolo da filosofia. O que já virá desde os tempos da grega Minerva. Porque a coruja só voa ao entardecer. O mesmo se diz da filosofia, que só depois dos acontecimentos - ao fim do dia - faz a sua aparição, reflectindo sobre os factos da vida num vespertino voo em asas da razão. Se um filósofo sobrevoasse estes nossos tempos, da sua habituada reflexão não teria dificuldades em se aperceber do triste domínio da ignorância e do maniqueísmo. Não havendo tempo, nem sapiência para ir ao fundo das questões, ao que verdadeiramente interessa, tudo se torna em vulgaridade, em enganosa superficialidade, em manifesta ignorância. Sem a percepção da essência, a vida reduz-se a um falso dualismo, que nos é imposto por quem detém o poder de criar opinião. Nestes nossos tempos, tudo tende a ser preto ou branco. Uns são os bons, outros os maus. Na visão ocidente versus oriente, aqui se esquecendo a riqueza de culturas tão diversas e de que todos somos Terra. Na corrida ao armamento e ao nuclear, como se fosse possível pensar em boa ou má violência. Na economia, na política. Nas pessoas. Os nossos são os bons. Os maus são os outros, os que pensam diferente. Só há dois mundos. Tudo o que um dos nossos faz ou diz é acertado. Os outros são ignorantes. A solução é sempre nossa, a culpa e os erros dos outros. Mas assim não deve ser. A vida tem mais cores. Tem sobretudo pensamento e razão. A capacidade de analisar criticamente o que me propõem, o que vejo, o que me dizem ou fazem, é a única maneira de me afirmar como sujeito de direitos e deveres. Pensar, discutir, ponderar, duvidar, são meios imprescindíveis para uma caminhada assertiva, fundada numa sólida base de valores e princípios, com respeito pelos direitos fundamentais da pessoa humana e da vida em comunidade, a fim de perseguir e de porventura alcançar um fim último: a dignidade. Não é fácil o caminho proposto. Exige que a razão combata o medo. Coragem na opinião mas respeito pela diversidade de pensamento. Um sujeito de direitos e deveres não precisa de mãos protectoras, porque, mesmo quando erra, os seus valores e a sua capacidade crítica ensinam o caminho correcto. É no reconhecimento de que somos sujeitos que se impõe um tratamento igual entre todos, uma igualdade apesar da diversidade das condições económicas e sociais, estas sim tão efémeras e transitórias. Hoje muito ricos, amanhã pobres. Na dignidade da pessoa humana, a única que nos acompanha ao longo da vida, não há sujeito inferior a nenhum outro, e por isso, cientes desta realidade, impõe-se que se assuma, em todos os momentos da vida, uma cultura crítica e exigente relativamente aos nossos direitos, mas simultaneamente cumpridora dos nossos deveres. Nestes tempos de solidão, em que cada um está entregue a si próprio, sobretudo no que é mau - no desemprego, no encerramento da empresa, na ausência por via da emigração forçada, na casa que se perdeu na tragédia natural -, a força da superação advém da certeza de que somos sujeitos de direitos e deveres, que temos razão e pensamento crítico, que temos de acreditar que é sempre possível, que somos o que queremos ser e não o que nos dizem que devemos ser.
Paulo Barreto