Gosto de aprender. Gosto de desaprender. Gosto de andar. Gosto de parar. Gosto de encontros. Não gosto de encontrões. Gosto de palavras. Amo o silêncio. Gosto de cada acorde que entre a palavra e o silêncio mora. Gosto de procurar. De não saber onde. De não saber o quê. Gosto de não saber. Gosto de brincar. Gosto de surpresas. Gosto de acreditar. Não gosto de não confiar. Gosto de ver. Gosto de viver. Gosto de viver para crer. Encontro, quase ao acaso, do lado esquerdo da página de rosto do livro Dobra - Poesia Reunida (1983-2007) de Adília Lopes, a reprodução de uma fotografia. Na legenda, inscreve-se um título - "Chá de bonecas no extinto Convento de Chelas, c. 1910" - e identifica-se a filiação de Adília (vejo, devagar). Entre meninas, bonecas, laços e miniaturas (de mesas e de cadeiras, ou pires e chávenas, por exemplo), está a "avó materna da autora, em primeiro plano". Talvez a ideia de família possa ser traduzida pela palavra dobra, como as que fazíamos em hamónios de papel na infância (aprendo); talvez a vida se desenhe a brincar em pequena escala nessas tardes que são uma vida em miniatura, como a infância nos é (creio). No limiar aqui quase transparente entre vida e obra, ou na "dobra" nada vincada entre "eu no espelho / a viver para crer" e a fotografia de família em que está retratada a "avó materna da autora", sucedem-se estas palavras: "subestimar e sobrestimar é péssimo. Há que estimar, há que ser de igual para igual. Isto, bem mais do que escrever uma bela quadra ou um belo sermão, é que custa, mas é o que vale a pena". Tocada pelo sopro de versos de José Tolentino Mendonça ("de igual para igual") e de José Agostinho Baptista, em "agora e na hora", por exemplo e entre tantos outros poetas ou apóstolos (e não só), tratando-se de "viver para crer", Adília Lopes, no que à matéria da poesia diz respeito, situa-se deste modo: "escrevo e publico poemas por uma questão de generosidade. Escrever teve para mim um papel instrumental: serviu-me para encontrar pessoas. Houve encontros e encontrões". Entre o amor e a morte, ou a vida e a obra, declara: "A minha falta de pudor em relação à morte é o meu amor pela vida. O meu amor pelos animais não é piegas. Eu sou sensível mas não sou piegas". Se os "tempos são crus", "a lembrança e o desejo e a esperança de que assim não seja anima-me. Um dia não muito longe não muito perto seremos felizes e vivos para sempre porque verdadeiramente carinhosos, isto é, caridosos". No encontro com Ruy Belo (que aqui é claro, limpo, transparente), Dobra - Poesia Reunida (1983-2007) opera um acontecimento revelado na última página destes poemas: "Na minha vida, até agora, aconteceram-me mais de mil milagres. Dou graças a Deus por isso". Viver e crer talvez seja - nestes nossos tempos - um desses milagres.

Diana Pimentel