Como temos vindo a referir, o atual governo condenou à morte o estado social, aproveitando a crise do Euro e a falta de crescimento económico do país para retirar quase tudo a quase todos. Não satisfeito com isso, ainda nos fez acreditar que a culpa é toda nossa, pois vivemos acima das nossas possibilidades, gastando o que não tínhamos e por isso agora temos de sofrer. Até 2008, quem é que falava de crise? Os juros estavam a 2%, havia trabalho à vontade, não se vislumbravam nuvens no horizonte, os governos para ganhar eleições, aumentavam ordenados, prometiam tudo a todos: escola emprego, casa, reforma, saúde, não eram da responsabilidade de cada um. O governo dava, arranjava, subsidiava, havia sempre forma de tocar a todos, para que as pessoas andassem satisfeitas, continuassem a votar "legitimando" os grandes negócios, o grande e contínuo banquete para os amigos, para os bancos e para outros tantos. Os sindicatos andavam contentes pois as suas corporações estavam servidas. Não importava saber donde vinha o dinheiro, nem se continuaria a haver no ano seguinte. Os que, como o Dr. Medina Carreira e outros, viram que o rei ia nu, que não se podia distribuir o que não havia, foram vilipendiados, apelidados de Cassandras. Não havia dinheiro, mas havia quem emprestasse, havia sempre mais uma autoestrada que permitia sacar mais algum, havia que saciar mais este ou aquele consórcio. Os paraísos fiscais alargaram mais um furo ao cinto, os responsáveis andam por aí, continuam a "ir a todas", porque, quer estando do lado do público, quer estando do lado do privado, os negócios estão lá, ainda há algumas jóias, ainda existe uma última gota no cálice e vender o país às fatias também dá dinheiro. Em 2011 entrou em cena a comissão liquidatária, toda mel, coberta por uma pele de cordeiro, debaixo da qual apenas se vislumbravam umas suaves e breves referências à saúde, à educação, coisa pouca, como se se fosse ficar por ali mesmo. Em breve, no entanto, mostrou as suas verdadeiras intenções, usando todos os recursos e tribunas do país para nos fazer querer que o terço da dívida do país contraída pelos privados para comprar, no mais das vezes, uma casa para habitação própria é a responsável pela dívida total do país, pelo estado a que o país chegou. A culpa é nossa e temos de pagar rapidamente até ao último cêntimo. A torneira vai fechando gradual e paulatinamente, à justa medida do limiar da ignição da revolta, cada medida tomada deixando antever a seguinte, neste holocausto nacional. Fazem-nos tomar, colher a colher, o "remédio" que nos irá matar. Os resultados estão aí, o país está seco, as mulheres parem cada vez menos, os melhores de nós, em que o estado investiu largas dezenas de milhares, dizem-nos adeus, pois não podem semear em cima de pedra. Anuncia-se mais uma horda de 1000 hunos fiscais para catar à lupa algum cêntimo microscópio que tenha escapado, ao passo que os elefantes que aí estão à vista de todos, que são conhecidos pelos nomes próprios, estão bem e ninguém os incomoda. Gota a gota se esvai o Estado Social, os direitos que julgávamos ter, os progressos civilizacionais conseguidos, a caminho da barbárie, do trabalho à jorna, da saúde de 3º mundo. E quanto a nós, quanto à nossa real responsabilidade neste processo? Em que medida malbaratamos e contribuímos para destruir o estado social, tornando-o insustentável e incomportável para a nossa economia? Começamos por ser culpados por os termos elegido, por termos dados ouvidos às vozes de sereia e termos permitido que esta gente nos governasse. Somos culpados por nos vendemos em troca dum prato de lentilhas, de dois sacos de cimento, levando-nos a agir incorretamente. Permitimos que gente imberbe desembarque do avião com o diploma de Dr. ainda molhado e vá diretamente apetrechado com a sua incompetência ocupar o lugar de diretor. Assobiamos para o ar, não vimos nada, tiram-nos lugar que era nosso por direito e competência e temos medo de nos defender, de denunciar de os pôr na cadeia. Faltamos às consultas gratuitas no centro de saúde sem avisarmos, sem qualquer tipo de consequência. Não nos responsabilizamos por trabalho, casa, saúde, educação, reforma, pois, no limite, o Estado irá providenciar. A Educação dos nossos filhos não é da nossa responsabilidade, é dos professores. Nas reuniões de pais e de entrega de notas, normalmente estão presentes os pais dos "bons alunos". A escola disponibiliza, a quem necessita, apoios à maioria das necessidades dos alunos, que deles não aproveitam, desde as disciplinas específicas, aos materiais escolares e até alimentares, que muitas vezes são desaproveitados, sem que haja consequências. Alunos "arrastam-se" pelo sistema anos a fio, a custo zero para o utente, saltando de curso para curso, passando por entre as malhas do sistema sem que ninguém seriamente "agarre" no problema e o resolva. Lamentavelmente, para cada lado que olhemos, encontraremos situações como as que foram enunciadas. Deste modo, fornecemos o pretexto ideal para que a corja ultraliberal, em vez de repor a legalidade, agindo pedagogicamente e repondo critérios de racionalidade e boa utilização, corte, suprima, extinga serviços e nos obrigue a pagar duas vezes a mesma coisa: em sede de IRS, e, numa segunda vez, quando pretendemos usufruir do serviço, como no caso das taxas moderadoras. Julgo que cada um de nós deve olhar para as suas mãos, e ver em que medida contribui para o desmantelar do Estado Social a que se assiste. Se calhar também metemos aquela baixa…, se calhar, a culpa não é toda deles, e até porque garantidamente, deles não virá a solução.

Helder Melim