Fala fininho agora, o presidente do Governo Regional. Durante anos e anos viveu politicamente das atoardas que foi mandando daqui para Lisboa. Dizia que fazia e acontecia. E durante anos e anos foi assim, de facto. Temos de reconhecer que ao barafustar como fez essencialmente com António Guterres e depois com José Sócrates, Jardim ganhou importantes dividendos políticos acompanhados de generosas remessas financeiras, algumas pura e simplesmente desbaratas. Essa estratégia, no entanto, era a ausência de estratégia. Era aquilo que confessa que gosta de fazer: empurrar os problemas com a barriga. O drama, como se vê agora, é que sobram problemas e falta barriga. Resultado: todos apanham pela medida grande. Mais uma vez é assim. Lisboa olha para a Madeira como se relaciona com uma grande junta de freguesia. Até já dá de barato as piadas, as críticas e as acusações e ameaças de separatismo que vão daqui para lá. Tudo isso agora vem de lá para cá devolvido e embrulhado em papel branco com letra de lei. E essa lei diz que é para fazer assim e é assim que se vai fazer. Foi o que aconteceu com o Plano de Ajustamento, foi o que aconteceu com o Orçamento e parece que é o que vai acontecer com a nova Lei de Finanças das Regiões Autónomas. O pior de todo este ajuste de contas entre o PSD de lá e o PSD de cá, é que há pessoas no meio. Há cidadãos, há famílias, há toda uma sociedade que se vê cada vez mais apertada, oprimida, empurrada contra uma parede ou para o abismo. E a solução, desta vez, parece ser comer e calar, sem levantar ondas porque o castigo ainda pode ser pior. Algo a que muitos madeirenses cedo se habituaram, mas a que tantos outros procuram fugir diariamente. E notam agora, uns e outros, que fugir implica emigrar ou aceitar, num misto de revolta e de resignação, o que nos dão como migalha. É por isso que não é mais possível olhar com desinteresse aquilo que deve interessar a todos. E a gestão das nossas contas públicas tem de interessar a todos. É o nosso dinheiro que está por aí. Algum bem gasto, outro assim-assim, e muito dele deitado fora. E agora, quando o presidente fala de fininho, não é só ele que come e cala. Somos todos nós. Uns mais atentos do que outros, uns mais resignados do que outros, uns mais silenciosos do que outros, mas todos apanhamos pela mesma medida grande. Deve ser a isso que se chama pagar o justo pelo pecador. Bom ano (na medida do possível).