2012 foi um ano tenebroso. Para além da conjuntura internacional, estamos sujeitos aos líderes políticos nacionais sempre a repetir que não há alternativa ao empobrecimento da classe média e à miséria generalizada, minando o país que assiste, anestesiado, à catadupa de impostos, despedimentos e fechos de empresas; à culpabilização dos trabalhadores da administração pública; ao ataque aos reformados, cujo pecado é continuarem vivos a 'consumir' dinheiro do Estado; aos custos da Segurança Social, sempre demasiado 'generosa', na opinião dos capitães do neo-liberalismo. Num imenso manto de desânimo e desesperança, de angústia e falta de expectativas, alimenta-se a ideia de um país miserável, esconde-se tudo o que é feito com qualidade, as atitudes construtivas, os espíritos combativos, os comportamentos vencedores na inovação, na modernidade, na competitividade, na excelência. Porque este país tem gente capaz de investir na inovação tecnológica que se diversifica entre um sistema de monitorização do litoral (Univ. Aveiro), um microgerador eólico de baixo custo e alta eficiência (Powering Yourself) ou uma aplicação que facilita a localização de idosos (Fraunhofer Portugal). Na educação, as notícias elucidam-nos que é português o professor mais inovador do mundo (Academia Musical da Lousã), ou que mereceram ser galardoados uma tecnologia que procura contribuir para a literacia nas crianças (Univ. Minho) e um jogo que quer combater o insucesso na Matemática (Empresários pela Inclusão/ Vodafone Portugal). Na saúde, há investigadores que integram ou lideram equipas que, como na Univ. de Coimbra, investigam novas terapêuticas para tratar o cancro da próstata ou que criam uma nanopartícula contra o cancro da mama, já patenteada nos EUA; que reproduzem modelos de fígado humanos (Inst. Biologia Experimental/Univ. Nova); que desenvolvem terapias para prevenção da rejeição de doentes transplantados (Inst. Sup. Técnico); que demonstram que é possível utilizar espinhas de bacalhau para produzir implantes ósseos (Escola de Bioteconologia/Porto); que descobrem as propriedades terapêuticas de algas em tratamento de tumores (Univ. Açores); que desenvolvem uma nanopartícula para combate do cancro e diabetes (Univ. Trás-os-Montes e Fernando Pessoa/Porto). É português o chefe de equipa do trabalho de medicina regenerativa/ engenharia de tecidos (Univ. do Minho), que recebeu uma das maiores e mais prestigiadas bolsas de Europa. Investigador que realça que sempre trabalhou em Portugal - uma bofetada de luva branca a todos quantos 'aconselham' a emigração como saída. É o nosso país que tem a melhor fábrica de atoalhados da Europa (Mundotêxtil), enquanto a indústria de calçado ocupa lugar de destaque e se criam mais-valias em marcas artesanais como o sabão de azeite artesanal (Olivia) ou a melhor manteiga artesanal do mundo (Marinhas). Exemplos de um país estupendo. É o país que não desiste, que trabalha, que luta contra as dificuldades; que procura soluções, investe, alcança vitórias e colhe frutos. O país que quer servir de exemplo e ser impulsionador de um futuro de cabeça levantada. O país que diz Vamos fazer! Quem nos governa ignora deliberadamente este país e tem, perante ele, o comportamento do automobilista que ao entardecer vai de carro na estrada e encontra um gato preto no asfalto. Como não o vê, passa-lhe por cima. Admirado, pergunta à mulher "O que foi isto?" "Não sei, era qualquer coisa", diz ela. Olham um para o outro e encolhem os ombros, preocupados apenas em chegar ao destino que elegeram como prioridade. Quando se viram para a frente, um precipício espera-os na curva da estrada. Também não o tinham visto e precipitam-se por ali abaixo. Sucumbem. Entretanto, o gato preto, atropelado, já tinha morrido. Se lição se retira desta história, é a de que só se pára o condutor se nos tornarmos bem visíveis no asfalto.

Violante Saramago Matos