Tinha a alma gelada pelos pés descalços, que calcorreavam a rua molhada. Na mão uma boneca velha e suja, que fingia ser a sua própria boneca de infância. Mas nunca teve bonecas, nem brinquedo algum. Aliás é de um tempo em que os homens não se deviam aproximar de coisas de meninas. A da sua memória é uma de trapos que as irmãs dividiam à bulha. Já teve família em tempos, mas brinquedos só a enxada que três vezes mudou de tamanho, mas nunca serviu para brincar.

Já não sente os pés, nem o espírito, que vagueia nos poucos metros da rua protegidos por arcadas, que não serviram, contudo, para impedir a água de correr. Espirra, como se despertasse, mas não. Senta-se à soleira da porta de um Banco, tira umas meias do saco de plástico imundo, em que já não se reconhecem as letras da grande superfície de onde saiu e que publicitou em tempos.

Está frio, mas não tem pressa. Não há meias ou cobertores que o aqueçam por dentro. Tira os sapatos que já espera encontrar secos, mas que vai molhar seja como for. Estão rotos. É um fantasma. Ninguém o vê. Também não está ali vivalma. Nem fantasmas para quem olha como se visse ao espelho. Anda mais um bocadinho. É madrugada, mas os dias deixaram de ter, para si, o ciclo normal. As horas são coisas etéreas.

Senta-se num banco de autocarro e desafia o frio cortante com uma gargalhada, que esconde com medo de que apareça alguém. Pega num jornal deixado ao abandono, antes de o guardar no saco pútrido que carrega tão religiosamente como a boneca que nunca foi sua. Ler o jornal é o único hábito que conserva da sua velha vida de rapaz do campo que veio para a cidade à procura de uma vida melhor. Mesmo que agora o faça com dias ou semanas de atraso. Este era daquele dia mesmo, mas não sabia. Viu a mensagem de Pedro Passos Coelho e leu que para o ano ia ser pior. Voltou a tapar a gargalhada com a boneca que tinha na mão, não o fossem tomar por maluco. Preferia ser fantasma. A rua sem ninguém e o frio trocista. O ano de todos os sacrifícios e de apertar mais o cinto que não tinha. Não teve medo do novo ano que vem galopante. “Vai ser pior”, ria-se baixinho.

Tirou um lápis do bolso das calças que encontrou no lixo semanas antes e escreveu um bilhete, que deixou no Terreiro do Paço, dirigido a Vítor Gaspar. “Eu também já tive certezas, mas hoje sou um fantasma”. "Ainda sei escrever", murmurava, antes de desaparecer na noite.