J. Edgar Marques Da Silva Falamos do aconchego do lar e de gente, mas quando nos referimos a "velhos e lares", nem aconchego nem de gente parecemos falar: "No reino dos fins, tudo tem um preço ou uma dignidade, quando uma coisa tem um preço, pode pôr-se, em vez dela, qualquer outra coisa como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite equivalente, então ela tem dignidade" (Kant). Ultimamente muita tinta corre sobre o Atalaia L C, e sobre lares, mas quem de nós que conhece a realidade dos lares, quer acabar, num destes que todos conhecemos; este ao que parece, com excelentes condições estruturais, revelou-se do ponto de vista da segurança contratual, para o cliente, um perfeito logro: nunca a transferência deveria ter ocorrido ou ser permitida, sem consentimento expresso do cliente; porque simplesmente lhe ficam com toda a reforma! Mas a verdade a discussão que se impõe, é que de uma vez por todas, se ponha fim a este estado de coisas, porque a vergonha é regional e nacional. Os mass-media, têm noticiado, num pais, em que a legislação é clara sobre como se cria um lar de idosos, a mesma exigida a residências seniores, ou unidades de residência assistida, exemplos vergonhosos de falsos lares e mesmo de alguns licenciados, que violem claramente a legislação, alguns inclusive explorados pelo estado, até um cego, vê a violação clara, ao nível de estruturas físicas e de pessoal. A legislação que existe é suficiente, mas verifica-se uma grande violação da mesma, e mais, o necessário e obrigatório contrato individual de prestação de serviços a estes clientes, raramente é celebrado e rubricado, atendendo, a uma individualidade nas dependências identificadas e respectivos custos indexados aos diagnósticos de enfermagem, associados depois a outra factura a relacionada com o regime hoteleiro, já que a primeira tem a ver com os serviços de saúde: é que em Portugal paga tudo pela mesma bitola, seja dependente ou independente o cliente, na realização das suas actividades de vida, e isso não é justo. O respectivo contrato, o regulamento interno, e a obrigatória aceitação do idoso em se mudar para uma estrutura destas, com o consequente tempo de adaptação em centro de dia/noite, são exigências da lei, que todos furam com a maior das facilidades, a maior parte das vezes, até com a "compreensão dos familiares aflitos". Mas compete ao estado ser mais rigoroso nas vistorias, assim como as Ordens profissionais da saúde, mais intervenientes na fiscalização. A verdade é que o actual paradigma organizacional da saúde, é obsoleto, anacrónico, e carece de uma consequente descentralização, no sentido de uma maior intervenção especializada nos domicílios, onde a hospitalização domiciliaria a partir dos hospitais de dia, seja uma realidade, a par de estruturas intermédias de assistência na alta precoce, nos cuidados continuados/paliativos, que podem muito bem ficar sediados em unidades de residências seniores ou mesmo lares, em estruturas físicas que respeitem o aconchego e aquilo que um lar deve ser, um sitio onde se viva com segurança e humanismo. É por isso que o turismo senior nunca singrou na RAM, ao contrario das 'nursings homes' no UK, a gestão de topo destes lares em Portugal deveria ser entregue a quem o cuidar é o cerne da sua licença para exercer.