Enquanto o pais se afunda, os políticos que o governam continuam na sua cruzada, alheios à realidade, mergulhados em programas excel ou em reviões da constituição. O autismo, infelizmente, é um mal geral.
Passos Coelho, o impopular feliz, fala como se toda a sua governação fosse um sucesso, como se todas as previsões estivessem certas e como se a tão acarinhada austeridade já tivesse dado provas da sua eficácia.
Quem ouve este primeiro-ministro falar quase que acredita que o homem, afinal, é um génio. Incompreendido, é verdade, mas um génio. Do alto de uma arrogância sem par, Passos Coelho teima em não ver o país real, em ignorar que a fome alastra, que as empresas definham, que tudo está a recuar a tempos de má memória.
O país real é algo que não assiste a este Governo, mergulhado em teoria política e económica. Os dramas do homem comum são tão naturais quanto aceitáveis.
Durante muito tempo, Portugal viveu alheio da política, a população entregava o voto nas eleições e depois esquecia-se de participar, de criticar, de ter uma cidadania activa. Agora, é a política que vive alheia de Portugal. Há dois planos que nunca se tocam: o plano dos que decidem e o plano dos que sofrem os efeitos dessas decisões. Um e outro apenas se tocam ao nível das consequências e estas têm sido desvastadoras, pese embora a tentativa de fazer crer o contrário.
Na Madeira, as coisas não são diferentes. À falta de dinheiro, soma-se a falta de imaginação e a estratégia de quem manda continua a ser a de desviar as atenções para um plano secundário. Entre a revisão constitucional como panaceia de todos os males e as vitórias fictícias num Orçamento de Estado de miséria geral, à política caseira só interessa manter o poder e algum dinheiro para sustentar os mesmos de sempre. O povo definha mergulhado em obras desnecessárias, o turismo é picado, e a economia devastada na ausência de uma estratégia de desenvolvimento que de verdade nunca existiu.
Do continente às ilhas, Portugal cumpre um designío que nem é grande, nem nobre, mas que consubstancia o que, um dia, Manuela Ferreira Leite defendeu: a suspensão da democracia. infelizmente não será apenas por seis meses. Como disse O'Neil, Portugal é quase apenas três sílabas e de plástico que é mais barato.