Por mais caridade cristã que descubra nesta quadra natalícia, não encontro tolerância em quantidade proporcional à demagogia, à prepotência e à imoralidade política por parte de quem finge governar sem poder nem administração. Ainda ontem, ouvimos Alberto João Jardim afirmar, em tom acusatório, que houve gente a tentar ganhar com o lar de idosos da Atalaia - até pode ter havido uma gestão danosa para o interesse público e, sobretudo, para os direitos dos utentes - para, no minuto seguinte, o mesmo presidente vir reiterar toda a confiança do mundo no director regional de Pescas, condenado na 1.ª instância por abuso de poder num caso de criminalidade económico-financeira. O governo, tal como disse Jardim, “não está para alimentar pessoas que procuram benefícios à custa da solidariedade social”. Pois não. Porque o alçapão abre-se apenas para quem estiver fora da rede de troca de favores, do ninho de conluio, da rede de tráfico de influências. Essas pessoas são o alvo predilecto da justiça penetrável que temos, mesmo para aquela que é sentenciada pelo executivo madeirense antes de qualquer instância judicial.

Ao falar dos “que se intrometeram no caminho e pensavam que iam ganhar dinheiro”, Jardim não estava a referir-se aos lóbis que se alimentaram até à exaustão do seu conceito de progresso assente na cimentação do crescimento betuminoso, nem dos administradores de empresas públicas que se sobreendividaram e arrastaram a Região para a falência técnica, nem dos falsos promotores do desenvolvimento sustentável que enriqueceram ilicitamente. O destinatário não era o director regional que acabara de ser condenado mas os gestores do lar da Atalaia, que acabara de falir. Esses sim, são “espíritos malignos” que não tardarão a “ser expurgados” como, aliás, o poder executivo tão bem sabe fazer habilidosamente, até com os seus semelhantes do interior do partido, usando a maçonaria e a guilhotina dos tempos modernos para decapitar a dignidade individual e abater profissionalmente aqueles que considera seus inimigos.

Não está aqui em causa o director das Pescas ou o empresário do Atalaia. O que está em causa é a impunidade de quem administra. Terá menos responsabilidade quem gere o erário público? Porque não há sanção disciplinar nem demissão? Porque se protege quem corrompe e se premeia quem esconde? Como avalia Jardim os ‘seus’ administradores? Tudo boa gente, todos reconduzidos, todos com um ‘bom’ no desempenho. Não há “espíritos malignos” nas Sociedades de Desenvolvimento que, há um ano, deviam perto de 625 milhões de euros? E quem se responsabiliza pela soma de 1,255 mil milhões de euros em avales emitidos para as empresas do sector público? É tudo dinheiro bem aplicado? Venha mais um camião de louvores com betoneira para pregar umas placas de latão! Quem responde pela ocultação de centenas de facturas de obras públicas realizadas? A quem beneficia a excepcionalidade de deixar a Madeira fora do mapa de revisão administrativa e da acumulação de pensões com salários aos titulares de cargos políticos? A quem serve a regionalização da RTP-M e quem garante que não sairá dali uma versão audiovisual do JM? Até que ponto o inquérito às contas públicas da Madeira, conduzido pelo DCIAP, será impermeável a intromissões externas e pressões subliminares? Até que ponto o processo de concessão das empresas públicas não está ferido de promiscuidade? Quem se certifica sobre a transparência dos actos de privatização e quem garante a idoneidade nas nomeações para os respectivos cargos de direcção? E quem disse que Jardim e Relvas não são ervas daninhas que congeminam no mesmo campo da prepotência?

P.S.: As ervas daninhas são uma espécie infestante de difícil eliminação. A acção de combate mais eficaz passa por um programa consistente de prevenção e controle. Isto para dizer que o assunto não fica arrumado com herbicidas químicos. Temos de meter as mãos nesta terra que é nossa e arrancar, um a um, o mal pela raiz.