
A situação nem deveria merecer comentários, mandava a inteligência que fosse ignorada, porque gente de bem não desce a esse nível, mas por ser recorrente e cada vez mais pública, permite cair na tentação de fazer o jogo de quem não o merecia e reagir. Mesmo correndo o risco certo do enxovalho cobarde nos espaços que este ‘herói’ usa, a coberto de um anonimato pouco disfarçado.
No último dia dos debates parlamentares do orçamento, na Assembleia Legislativa, um deputado do Partido Trabalhista Português – poucos devem saber a designação do partido – insultou os jornalistas madeirenses, sobretudo os que fazem a cobertura dos trabalhos parlamentares, entre os quais me incluo há vários anos, de serem “sabujos”, “vendidos”, “reaccionários” e de estarem todos “feitos” com o poder. Isto foi gritado a plenos pulmões naquela que deveria ser a casa da democracia, do respeito pelos direitos dos cidadãos e o expoente máximo de justiça.
Podemos dizer que zurros de burro não nos atingem, que os insultos de um qualquer eleito do Povo, escudado numa imunidade parlamentar que só deveria servir para usar contra os que têm a mesma arma, resvalam na indiferença, mas não é assim. Magoam, são injustiças aberrantes e revelam a hipocrisia de quem se diz defensor dos oprimidos, porta-voz dos mais fracos e paladino da democracia, mas que não tem – há anos que é assim – qualquer problema em enxovalhar, insultar ou ofender, em público e ao abrigo da imunidade, pessoas que não têm as mesmas armas para responder.
Para o senhor do PTP, que tem uma vaga ideia do que é comunicação social e outra ainda mais reduzida do que é liberdade de informar e democracia, os jornalistas só seriam bons se fossem ‘tripés’ acéfalos que transmitiriam, na íntegra, todas as afirmações do dito cujo, dando-lhe um espaço muito superior a qualquer outro, porque é um ‘herói’.
Esses mesmos jornalistas que, ao ‘engolirem’ todos estes insultos, ao longo de anos, transmitiram a imagem, limpa de hipocrisia e de mau carácter, que permitiu resultados eleitorais tão significativos. Esses mesmos que, ao não reagir, ajudaram a que o Povo comprasse uma conversa de tasca que dá muitos ‘likes’ no facebook e muitos ‘sinais mais’ nestas páginas. Nisso, sim, somos culpados. Culpados por omissão.
Quem chegou até ao fim do texto está a pensar: Mas ele não faz o mesmo que o outro que está lá há 36 anos? Pois é...