"A vida é uma imóvel, bloqueada, Luta a três mãos entre Os teus desejos, Os que o Mundo de ti alimenta, E (agravada) A máquina invencível e lenta Que te traz O que terás." Philip Larkin (tradução minha) Por motivos menos evidentes, a Esperança lembra-me de Veneza. No interior da Ponte dos Suspiros - uma ponte coligando o Palácio Ducal às masmorras, onde os condenados, perante o canal, desabafariam o último suspiro antes da encarceração - uma guia turística fazia uma referência cruzada e impressionista. "Diz-se", esbracejava, "que os carrascos exclamavam, defronte desta mesma janela, que aqueles que por aqui passavam deviam abandonar toda a Esperança". E foi então que uma histérica mulher portuguesa, abandonando a feroz percussão com que castigava a máquina fotográfica, violou a solenidade do sepulcro: "Sem ESPERANÇA, q'horror!". Recapitulemos. Atirados como excremento - e, frequentemente, COM algum - para uma prisão maciça, subterrânea e por vezes submarina do Palácio mais bem guardado de um dos Estados mais pujantes (e rodeados de água) do Renascimento, ainda se julgava que o que faltava àquela malta era ESPERANÇA. Esperança redimi-los-ia. Tirar-lhes a Esperança seria um acto de crueldade. Um "orrrooor". Mas não, Senhora. Tirar-lhes a Esperança era um acto de misericórdia. Cortava-lhes a hipótese, absurda mas provável, de entrar em negação quanto à gravidade - algo elevada - da sua situação. Nisto reside a minha desconfiança na Esperança. Em alturas de Natal e Anos Novos, a Esperança aparece como uma necessidade, em si mesma uma qualidade, um sentimento muito nacional, alegadamente capaz de constranger o Universo a conspirar a nosso favor. Como todas as ilusões, esta Esperança funciona contra nós. Esta Esperança - caraças, vem de ESPERAR - é um bypass para a felicidade, e, enquanto nos convence da existência de um (bom) destino, inibe-nos de o construir. Esta Esperança é um vício. Na ficção popular, todo o sofrimento inocente tem recompensa - e nós temos sofrido aleatória, injusta, incompreensivelmente. Esta Esperança está no osso "do" nosso mito literário - o Quinto Império - e correspondente social - a ideia de que os Portugueses são génios adormecidos aguardando desfibrilação por um líder predestinado ou um golpe da sorte. Na luta a três mãos da vida de Philip Larkin, esta Esperança não milita pela mão dos nossos desejos - engrena a máquina lenta de decepção, falsos Messias e medo que nos impede de atingir o nosso potencial. Este Natal e em 2013, elogio o desespero. Desconfio do silogismo de um problema complexo ter solução simples. Rejeito a falácia de que o mau muda necessariamente para melhor. Rejeito a fé na natureza transcendente dos líderes. Reconheço a prisão - a sua perversa, intrincada e labiríntica arquitectura - e reconheço que o primeiro passo para sair é não esperar que alguém me venha buscar. É nela, e só nela, que posso trabalhar. Não julguem que me iludo. No final, ganhará a máquina lenta e (lá está) invencível. Mas não será pela força da minha mão. Feliz Natal, leitor. Força na sua mão.

Pedro Fontes - Advogado