Foi mau. Muito mau mesmo. Mas ninguém deu por isso. Porque, no fundo, foi igual ao de sempre e já ninguém liga. Foi esta a resposta que dei a um amigo que me perguntou como foi este ano o debate do Orçamento Regional. “Então, conta-me como foi”, dizia ele num misto de curiosidade e de ligação à série televisiva que mostra os tesourinhos deprimentes do Portugal contemporâneo. Na verdade, não foi, disse eu a quem não conseguiu acompanhar os trabahos (?) do debate. E não foi porque, salvo as raras excepções de sempre, tivemos os mesmos de sempre a fazer os números de sempre. É mais ou menos como ir ao circo e saber quando aparecem os cães amestrados, os trapezistas e os palhaços. Pode até ser bom, mas não surpreende. Foi assim o debate desta semana naquilo a que alguns ‘engana-cristos’ chamam de casa da democracia. Aquela ‘casa de loucos’, como um dia chamou o principal responsável pela casa de espectáculos deprimentes em que o nosso Parlamento se transformou, voltou a ser mais do mesmo. Com uma pequena diferença: já ninguém lhes liga. O presidente da Assembleia, o presidente do Governo, alguns deputados do poder e da oposição que voltaram a ser iguais a anos anteriores, apenas conseguiram provar que podemos viver bem sem aquela ‘pouca-vergonha’. Imaginem os Leitores o que seria o primeiro ministro faltar ao debate quinzenal no Parlamento. Imaginem o que seria se Passos Coelho tivesse dito que a liberdade de imprensa é uma treta. Ou que um líder da oposição é uma “vigairice”. Ou que todos os que pensam diferente são incompetentes, sem ideias novas. Imaginem o que seria haver alguém do poder, em Lisboa, a ameaçar sair da União Europeia. O que seria se o primeiro-ministro e os ministros saíssem do Plenário quando falavam alguns deputados da oposição. E o que se seria se alguém desse conta de um exemplar de um jornal rasgado só porque não alinha nestas brincadeiras e dá notícia do que é realmente notícia, por muito que doa a quem manda. Este compacto da mais básica falta de educação seria suficiente para semanas de polémica, para críticas ferozes, para pedidos de demissões, para demissões, mesmo. Por muito menos já se viu caírem ministros e secretários de Estado. Mas não há cá disso. Aqui ninguém se demite, ninguém é responsabilizado, ninguém vai preso, para usar a deliciosa expressão do vereador Costa Neves. Ele sim, em risco de ser expulso do partido por se atrever a dizer que discorda. Quase tão ridículo como o militante que vai para a rua por ter jogado bilhar com uns amigos do CDS. Ao que isto chegou. Mas o mais grave disto tudo é que exemplos destas brincadeiras que só aqui acontecem repetem-se com frequência e já ninguém liga. Os casos aparecem tão amiúde que já ninguém nos leva a sério. Veja-se o último, o dos 5 milhões de euros que o Tribunal de Contas diz que foram gastos a mais nos estudos para um hospital que era uma prioridade e agora é um desperdício que nunca vai passar do papel. Alguém acredita que vai haver responsabilização por este despesismo? Claro que não. Quanto muito vamos gastar mais uns largos milhares a pagar a advogados para empurrar o caso para a frente até cair no esquecimento. E os madeirenses, como se tem visto, esquecem-se muito facilmente. É triste mas a verdade é que da ribalta da agenda política nacional, passámos para o rodapé. Os casos da Madeira, as broncas que aqui se produzem com assinalável rapidez são notícias breves no resto do País. Mesmo que envolva, como aconteceu esta semana, um secretário de Estado que cometeu o crime, imagine-se, de visitar a Madeira sem se fazer anunciar ao presidente do Governo, como se este pedaço de terra não fosse Portugal, por muito que pareça uma aldeia africana. Mesmo assim, nem este caso interessa a ninguém do outro lado do mar. Definitivamente, estamos isolados. Sem o dizer claramente, o que se houve do silêncio dos responsáveis políticos de todo o País, a começar pelo presidente da República, é mais ou menos isto: não escolheram a mesma maioria de sempre, o mesmo presidente de sempre? Agora amanhem-se! É triste, mas têm razão.