Se há coisa de que não se pode acusar os madeirenses é de falta de solidariedade. Com maior ou menor esforço e boa vontade, a grande maioria de nós chega-se à frente quando é preciso dar qualquer coisa. Até porque temos presente que por muito má que esteja a nossa vida, há sempre alguém pior do que nós. Nem que seja por este princípio muitos abrem a carteira, mesmo que de lá saia apenas uma moeda amarela ou preta. Afinal, como quase todos nós aprendemos, “o pouco com Deus é muito”. Nestes dias que antecedem o Natal, seremos novamente confrontados com dezenas de voluntários. Vão abordar-nos já este fim-de-semana à porta dos supermercados, com papelinhos a dizer o que precisam. E nós, como sempre, vamos recolher alguns pacotes de massa, quilos de arroz, latas de conservas e outros bens de consumo de longa duração que se amontoam num carrinho que vai enchendo carrinhas e carrinhas e os quilos transformam-se em toneladas. Este ano não vai ser diferente e junto a minha voz aos que lideram e colaboram com organizações de solidariedade social num pedido muito concreto: dêem qualquer coisa, por muito pouco que seja. Se há altura em que dar tem um significado muito maior que esta palavra de três letras, é agora. É quando as pessoas precisam, é quando a pobreza atingiu milhares de famílias, é quando a fome ataca novos e velhos, mesmo que de forma disfarçada mas cada vez menos envergonhada. Porque a fome aperta mesmo, porque gente que estava bem vive dificuldades extremas, porque muitos perderam o emprego, porque outros tantos nunca o tiveram. Por isso, se faz favor, dê qualquer coisa neste Natal e sinta esse gesto como um presente a si próprio. Feito o apelo, não posso deixar de fazer uma observação a quem nos governa: acordem para a vida, vejam a miséria que vai entre este povo que só é superior na paciência com que enfrenta estoicamente muitas injustiças com origem no poder político, no poder de quem foi eleito para tornar este mundo melhor. Não vou aqui enumerar, por ser demasiado fastidioso, um conjunto de obras e decisões políticas que ajudaram a mandar para as ruas da amargura centenas de famílias. Apenas recordo três exemplos que foram notícia nos últimos dias: a escandalosa fortuna que é todos os meses derramada à porta dos partidos, cerca de 5 milhões por ano, valor que deve ser reduzido, a vergonhosa descarga de dinheiro sobre a forma de cimento na marina do Lugar de Baixo, que acaba de nos custar mais quatro milhões de euros e o dinheiro esturricado, todos os dias, num jornal de propaganda partidária que custa ao ano mais de 3 milhões. Apenas nestas três brincadeiras o ‘senhor governo’ estoirou este ano, pelo menos, cerca de uma dúzia de milhões de euros. Imaginem, com esse dinheiro, quantas pessoas poderiam ser ajudadas de forma digna nesta fase mais difícil da vida. Quantas famílias poderiam prescindir da esmola, das moedinhas na rua, dos quilos de massa e arroz que recebem envergonhadamente. Quantas refeições poderiam ser oferecidas a quem tem fome. Quantas escolas teriam telefone pago, quantos balneários escolares teriam água quente, quantas piscinas estariam a funcionar, quantos medicamentos daria para comprar, quantos pequenos calotes daria para pagar a centenas de empresas que não teriam de fechar e mandar outras centenas de funcionários para o desemprego. Imaginem. Feita esta observação ao Governo, permito-me deixar uma sugestão aos que são governados, sejam eles ricos, pobres ou remediados: acordem!