Está a chegar o Natal, uma época onde os sonhos ganham espaço e as familias ultrapassam barreiras geográficas e emocionais, para se unirem à volta da mesa e partilharem doces , afetos e alegrias. As crianças sonham com o pai natal, e os adultos vestem a pele de encantadores de sonhos e tentam realizar os desejos dos mais novos e os seus, num clima mágico e sedutor. Contudo esta realidade nunca foi linear e enquanto uns brindam à volta da mesa, aguardando a chegada do pai natal, ou a hora da troca de presentes, outros choram de fome ou de solidão. Se a fome doi, em qualquer altura do ano, no natal ela ainda é ainda muito mais aguda. Quando tudo à nosa volta fica demasiado luminoso e euforizante, o contraste torna-se mais evidente. Este ano muita coisa mudou no país em que vivemos, e se para algumas familias o consumismo exacerbado irá dar lugar a uma atitude mais equilibrada, com ajustes à rotina, por vezes até excêntrica, dos festejos de natal , para outras este natal vai ser um momento de grande tristeza, angústia e aflição. Volto a falar das familias que se encontram neste momento numa fase de desespero, sem rendimento que lhes permita ter uma vida com dignidade. Para todas estas pessoas, este natal vai ser vivido com uma enorme dor e sofrimento, uma dor que, para muitos, por vergonha, não irá ser partilhada. Nessas familias, os adultos vão sofrer a impossibilidade de ter comida na mesa e um presentinho no sapatinho dos filhos, as crianças vão partilhar esta dor que os pais tentam esconder, apesar da evidência da dor dilacerante. Percebem que em casa as dificuldades são muitas mas que, por lealdade ao segredo familiar, não devem transportá-lo para fora. Assim , estas crianças não dão a conhecer a sua fome, em lugar nenhum , nem mesmo na escola. Muitas vezes os professores apercebem-se da situação, mas as crianças ou jovens negam a realidade para proteger a familia da vergonha da sua pobreza. São pessoas que continuam a fazer tudo para não prejudicar o sistema social, a que pertencem, pessoas que trabalharam a vida inteira, que sempre cumpriram as suas obrigações, que viviam sem dificuldades e sem excessos, pessoas como muitos e muitos de nós. Depois existem os outros, que por assumirem a sua pobreza ,não vivem mais felizes. Contudo a manifestação das suas necessidades, permite que possam usufruir de alguns apoios, que apesar de cada vez mais escassos , podem levar comida à mesa e um presentinho no sapatinho das crianças. Já não é a primeira vez que chamo à atenção da pobreza escondida, por vergonha e sentimento de culpa. A responsabilidade de tudo isto, para além das razões económicas e politicas, e de uma gestão cada vez mais desigual e pouco solidária, da parte de quem governa ,que revela um profundo desrespeito pelas pessoas no geral e transforma tudo numa massa indiferenciada que vai sendo moldada em função das politicas e interesses pessoais, passa ainda pela falta de uma atitude solidária que não penalize quem tem dificuldades. Durante muito tempo ouviamos no discurso comum, pagar o justo pelo pecador, como se todas as pessoas em dificuldades finaceiras, fossem preguiçosas e péssimas gestoras das suas economias. Só que nessa altura, criticar parecia fácil, os cartões de crédito, os empréstimos sem limite e o consumo em cadeia, dava uma sensação de poder e de igualdade. Contudo a "crise", ajudou os mais resistentes, a perceber como tudo era apenas uma ilusão. Hoje, a vergonha deve estar do lado de quem não está atento às necessidades de quem precisa, sem que seja preciso gritar em desespero. Não falo daquele tipo de solidariedade, da caridade exposta , em forma de festas, cházinhos e roupas de marca, a que precisamos mesmo é aquela do dia a dia, sem preconceitos nem visibilidade para ambas as partes. A ajuda desinteressada e verdadeira ,de quem sabe que um dia pode chegar a sua vez de precisar do outro, seja para o que fôr. Um natal solidário é o meu desejo para todos!

Manuela Parente