Viver com o dinheiro do seu trabalho não é viver acima das possibilidades. Eu aceito a ideia de que é preciso reaprender a viver com menos, já o estamos todos a fazer, porque efectivamente a maioria já leva um bolo menor para casa. ` É verdade que houve pouco incentivo à poupança e mais ao endividamento e que esse paradigma tem de mudar. Viveram-se tempos de crédito fácil, mas Portugal não faliu, como a Irlanda, por os seus cidadãos terem ido comprar todos segundas e terceiras casas. O Estado é que faliu e viveu acima das suas possibilidades. O Estado, é certo, somos todos nós. É também reflexo do nosso comportamento nas urnas.
Os portugueses, a maioria, não viveram acima das suas possibilidades, quando muito viveram com expectativas irrealistas. Mas voltamos ao mesmo: O Estado é que transmitiu a ideia de recursos ilimitados e de garantias para sempre.
Mas o que me incomodou mais no sermão de Isabel Jonet não foi o facto de ela ter dito que os seus filhos são crianças pouco amigas do ambiente que lavam os dentes com água a correr. É um problema de disciplina que ela deverá resolver dentro de portas. Não foi aquela reflexão moral dirigida aos peixes de classe média e média baixa (se é que isto ainda existe) que costumam contribuir com bens alimentares para a Instituição que ela preside. Não foi ela tentar intervir na lista de compras e nos bifes que cada família come. Isso é o de menos, é conversa de café corriqueira.
O que me incomodou verdadeiramente foi a benemérita Jonet ter dito que não havia miséria em Portugal (foi por contraponto à Grécia, é verdade). Foi preciso lembrar à presidente do Banco Alimentar Contra a Fome um estudo sobre a pobreza em Portugal, que dá conta do número de pessoas que não faz refeições fundamentais por falta de dinheiro.
E agora podemos falar de conceitos. Pobreza pode não ser miséria. Mas é irrelevante. Ao dizer que não há miséria em Portugal, Jonet, que sempre lutou por esta causa, está a esconder os pobres, os que nem dinheiro para sopa têm quanto mais para bifes. Pode até ter camuflado a miséria de bens, mas evidenciou a pobreza de espírito, cujos efeitos são por vezes mais nefastos...