Adquirido pelos Beatles em 1966, este iate marcou uma geração por aquilo que realmente representa: memória colectiva. Quis a sorte que o mesmo, após a separação da banda, no princípio dos anos 70, rumasse às Canárias e de lá ter finalmente aportado ao Funchal. Transformado em bar e restaurante com o 'logo' dos Beatles, a frente-mar da cidade foi a sua casa desde 1984. Lembro-me de lá ter ido tomar café, ao som dos Beatles, visualizar nas paredes do barco as suas fotos, imaginar as canções lá compostas e as festas dos fabulosos quatro de Liverpool. Com o tempo, o empresário quis expandir o negócio, associando pequenos barcos em redor do recinto. Modificou a estrutura e arquitectura do barco. Adquiriu colunas de som exterior e contratou animação barata que se expressava desde os 'fados e guitarradas'' aos sons Pop ao estilo, 'one man show''. O conceito perdia-se para sempre! Outros nomes planetários, como Winston Churchil, a Princesa Sissi, o Imperador Carlos de Áustria ou Cristóvão Colombo, têm memória na Madeira. O turismo cultural reactiva-a a todos quantos nos visitam. Em qualquer cidade europeia, o dito iate bar-restaurante, com a marca 'Beatles', seria um sucesso garantido. O que é que correu mal? Ficará para uma resposta no futuro, por quem a entender dar. Podemos elencar algumas pistas. Sabendo que, em 1984, foram emitidas licenças e autorizações, bem como nos anos posteriores, para alteração de projeto, não temos conhecimento de contraordenações dos responsáveis pela pasta do Turismo ou outras entidades oficiais. Das duas hipóteses, uma teria de ser tomada: travar a desvalorização do objecto memória dos Beatles, por razões turísticas, ou impedir, que a própria Memória histórica da cidade ficasse manchada com sucata sem sentido, o que veio a acontecer.

Vítor Sardinha, Músico