"O tratado era perverso, injusto, ditatorial, um tratado para a escravidão." Pese embora a actualidade da citação, a mesma é uma referência ao rescaldo da 1ª Grande Guerra e ao tratado de paz imposto pelos Aliados à então derrotada Alemanha - o Tratado de Versalhes. Com os alemães afastados da mesa de negociações, Estados Unidos, França e Reino Unido seriam os alfaiates de um colete de forças feito à medida da Alemanha, determinando, entre outras medidas maquiavelicamente restritivas, o pagamento de mais de, actualmente, 350 biliões de Euros em compensações. Quase 100 anos depois, a história repete-se mas os intervenientes mudaram de posição. Hoje, é a Alemanha que impõe programas de ajustamento draconianos aos seus parceiros europeus. Hoje, é a todos os madeirenses que é pedido um esforço desumano, pelo cumprimento de um programa que - todos sabemos - não é possível ser cumprido. Mas há vida para além deste programa de ajustamento, há um caminho de mudança a percorrer - a renegociação imediata do PAEF. Na verdade, só um programa adequado à realidade económica da Madeira, e que associe as suas metas a medidas de dinamização dos sectores estratégicos da nossa economia, pode ser capaz de criar crescimento económico e emprego. Voltando a Versalhes, os termos do tratado levariam a economia alemã ao colapso, com episódios históricos de hiperinflação, até que alguém disse: "Nenhuma nação pode afastar a mão que a sufoca a não ser pela espada." Todos sabemos o que veio de seguida.

João Paulo Marques, Advogado