Estas coisas não acontecem por acaso!Já dizia o Dr. Oliveira Salazar que devíamos ler as sagradas escrituras antes de pensar em servir na política. É verdade que ele se referia às passagens da semana santa onde se vê que o mesmo povo que grita hosanas num domingo, deseja a crucificação na quinta-feira seguinte e àquela outra que retrata a tripla negação de Pedro quando confrontado com a condenação do seu líder e amigo. Leituras, pelos vistos, em falta na Rua dos Netos… Mas as leituras bíblicas trazem-nos outros ensinamentos para a vida política que é útil relembrar. É impressionante descobrir nesse conjunto de livros, em especial nos do Antigo Testamento, a profunda relação entre os fenómenos da Natureza e o devir da comunidade, numa certa predestinação, ligando o futuro de Israel aos acontecimentos naturais. Haverá quem interprete isso como leituras pouco conhecedoras das causas das desgraças e das manifestações mais extraordinárias que iam acontecendo aquele povo ao longo dos séculos e tenha a tendência de interpretá-las como castigos de Deus ou sinais do divino. Outros não deixarão ter uma visão integrada de tudo isto onde os tais fenómenos apenas revelam a pequenez do homem, a necessidade da sua constante regeneração e a efemeridade das Torres de Babel que vamos edificando por aí. Situemo-nos nas dez pragas do Egipto, onde os fenómenos naturais - hoje cientificamente também interpretados como manifestações de um vulcão que eclodiu na época - se aliam à libertação do povo de Israel do longo cativeiro. O faraó só deixou em liberdade o povo escravizado quando se consumaram os dez castigos que Moisés lhe foi avisando sucessivamente, em nome de Deus. Uma interpretação mais profunda sempre comparará a liberdade do povo de Israel com a salvação que Cristo anunciou na sua pesagem pelo Mundo, também ela feita de sofrimento e sacrifício. Desde Fevereiro de 2010, a Madeira tem vindo a sofrer um conjunto de acontecimentos, que temos, por vezes, a tentação de interpretar ou ler como sinais de outros destinos desta comunidade. Foram os mosquitos e os escaravelhos, as chuvas e os incêndios e até um programa de assistência financeira ou o deslizar de grandes grupos económicos que poderíamos interpretar como querendo dizer algo sobre o nosso futuro. Não tenho a pretensão de interpretar as nossas últimas desgraças colectivas como qualquer sucessão de pragas explicadas numa libertação que estaria para acontecer. Elas não são de certeza um meio para despachar faraós! Devem naturalmente ter também uma leitura política mas não centrada em sinais apocalípticos! Em relação aos fenómenos naturais que nos têm acontecido devemos reconhecer que eles revelam outras realidades que importam reter: A primeira é que as alterações climáticas no Mundo não são uma brincadeira e vieram para ficar. Esta aproximação tropicalizada a uma Venezuela, não é passageira nem conjuntural! A segunda é que a pluviosidade cada vez mais intensa e densa impõe um repensar do território e do seu aproveitamento o que não se compadece com soluções urbanas em espaços de elevados riscos, com um "deixar fazer" seja em que lugar for. Se olharmos para algumas instalações dentro de ribeiras ou construções à beira de falésias, além de uma enorme área impermeabilizada não podemos deixar de pensar no que é preciso alterar. A desejada carta de riscos regional tarda e na ocasião em que se repensam os planos directores municipais esta reflexão urge! Nesta matéria o investimento em protecção civil e na segurança das populações torna-se prioritário não se compadecendo com o ruidoso e problemático silêncio dos órgãos de soberania sobre essas necessidades regionais. A terceira conclusão é que o gigantismo das obras humanas e o orgulho que elas nos podem ter trazido são de facto pequenos anões quando confrontados com a força dessas intempéries, quase que nos ensinando a humildade da nossa dimensão e falibilidade das nossas realizações. Persistir na arrogância e na certeza de soluções que o mar leva ou que se escoam pelas ribeiras abaixo, é não entendera verdadeira força que a Natureza tem e o respeito que ela merece. Se há lições que podemos tirar dos últimos acontecimentos é a necessária humildade que os políticos devem ter para reconhecerem os seus erros a capacidade que devem demonstrar de agregar esforços na reflexão e na acção que eles exigem. A bem da comunidade que temos o dever de servir.

Ricardo Vieira