Se uma hora depois de conhecidos os resultados finais das eleições internas do PSD-M os militantes voltassem a ser chamados às urnas para repetir a votação, não tenho dúvida de uma coisa: Miguel Albuquerque ganhava e de goleada. O mesmo se fosse hoje, amanhã, ou daqui a dois anos - se o partido resistir tanto tempo - quando se realizarem novas 'directas'. Na sexta-feira apenas faltou coragem para arriscar a menos de uma centena de militantes, aqueles que nunca acreditaram ser possível enfrentar a nomenclatura do partido, os secretariados, comissões políticas, deputados, empresários amigos do Governo e alguns autarcas.

Foi precisamente essa nomenclatura, agarrada a cargos e aterrorizada com a possibilidade de eleições antecipadas que segurou Jardim. À tangente, mas segurou e por isso deve merecer mais dois anos de confiança nos cargos que lhes foram oferecidos pelo líder. Mas tremeram, lá isso tremeram.

Como tinha referido, neste espaço, dias antes destas eleições, a tal 'maioria silenciosa', classificada por Jardim como militantes de segunda, falou e abalou definitivamente o poder de quem pensava que iria passear na última sexta-feira. Ao ponto de até já ter uma conferência de imprensa marcada para pouco mais de meia hora depois do encerramento das urnas. Teve de penar muito mais tempo.

Foi o maior susto eleitoral de um líder que já só manda em metade do partido e mesmo nessa metade deve ter perdido muitos apoiantes nos últimos dias. Aquele discurso da noite eleitoral, com referência a aspectos físicos do adversário - no mínimo de mau gosto -, ameaças a quem não votou em si e a promessa de limpeza, feita por um dos seus assessores que se limitou a confirmar o que o chefe já tinha dito, deve envergonhar todos os que ainda têm alguma vergonha.

A um ano das 'autárquicas' e com estes resultados, com vitórias claras de Albuquerque no Funchal, Santa Cruz, Calheta e São Vicente, as coisas ficaram muito complicadas para que a nova (?) comissão política possa impor candidatos e ignorar as bases. Porque se a maioria dos militantes desses concelhos é crítica em relação à liderança, o eleitorado ainda será mais. Muito mais.

No caso do Funchal, em que só um voto em São Roque impediu Albuquerque de fazer o pleno, é muito arriscado avançar com um candidato que não agrade ao actual presidente da câmara. Pode significar a derrota.

Ao queimar Bruno Pereira, obrigando-o a integrar a sua lista, Jardim deixou aquele que seria o candidato natural numa situação muito difícil. Dentro e fora do partido, a atitude do ex-vice de Albuquerque não caiu bem. Mesmo nada bem.