No disco "Partimpim" (de Adriana Calcanhoto) há um pequeno folheto de breves páginas no qual se conta a história de uma canção: Paula Toller tem um filho chamado Gabriel, que tinha, então, "oito anos". Aos "oito anos" Paula fez uma lista das perguntas que Gabriel lhe fazia. Na voz de Adriana, Paula encontra um outro Gabriel "esperto e adorável", curioso e interrogativo como fomos (se não somos, ainda). Adriana dá a cada pergunta um tom doce e a impertinente - e sábia - espontaneidade da infância. Para Paula Toller, o facto de o catraio "perguntar tanto é menos para saber a resposta do que para treinar a ferramenta perguntadora e a paciência do respondedor". São perguntas sem respostas reais que importem: o fogo, a terra, o espanto e os espirros, o sangue que corre, a vida que morre. Como responder àquilo de que se faz a vida descoberta - inteira - aos oito anos? "Por que os ossos doem / enquanto a gente dorme? / Por que os dentes caem? / Por onde os filhos saem? / Por que os dedos murcham / quando estou no banho? / Por que as ruas enchem / quando está chovendo? / Quanto é mil trilhões / vezes infinito? / Quem é Jesus Cristo? / Onde estão meus primos? (...)" Perguntas. Perguntas sem respostas plausíveis para oito anos. Provavelmente cada um de nós terá, a pulsar em parte incerta, esta "ferramenta perguntadora" mas nem sempre uma máquina respondedora. A ferramenta que nos interroga trabalha sem bateria ou electricidade. É manual mas vem sem manual. E é paradoxal: se fazemos a pergunta é porque intuímos que - no avesso dela - está uma resposta; só não sabemos se é nossa ou acertada. De novo, perguntamo-nos. Um poeta mexicano - um pouco mais crescido que Gabriel, mas com a mesma sabedoria - escreveu, para uma série de colagens de Marie José Paz (sua mulher), um conjunto de "Figuras e Figurações" (de 2000). No livro de Octávio Paz encontramos poemas feitos a partir de trabalhos de Marie José (construções, montagens, caixas de segredos com objectos dentro, abertos ao nosso olhar, página a página). Um deles, "Enigma", quase conversa com Gabriel, murmurando-lhe: "Nascemos de uma pergunta. Cada um dos nossos actos é uma pergunta. Nossos anos são um bosque de perguntas, tu és uma pergunta e eu sou outra. Deus é uma mão que desenha, incansável, universos em forma de perguntas". No livro, ao lado deste poema de Octávio Paz mora a imagem de uma caixa transparente dentro da qual está a parte de cima de alguns cabides (nus), enroscados a uma base de madeira. O arco em que começam (altos, de metal antigo) tem a forma de pontos de interrogação. Marie José chamou-lhe "a floresta interroga-se". O que pergunta? Ouço o silêncio: nenhum som toca o ar. Pergunta. Perguntas.

Diana Pimentel