As eleições internas no PSD revelaram-se uma surpresa em toda a linha. Quando todos esperavam que Alberto João Jardim derrotasse o adversário por uma margem confortável, a vitória surgiu por uma unha negra.

Habituado a maiorias inquestionáveis, o líder histórico foi apanhado de surpresa e, pela primeira vez, sentiu que o chão lhe fugia. Reclamou a vitória, mas, feitas as contas, é fácil de perceber que meio partido lhe saiu da mão.

O discurso na noite eleitoral foi o habitual, mas nada pode apagar o desconforto de uma quase derrota preconizada por uma equipa alheia à poderosa máquina social democrata e que não teve as mesmas armas num combate, desde o início, desigual.

Com uma lista de quase perfeitos desconhecidos, Miguel Albuquerque não só derrotou o mito da invencibilidade de Jardim, mas também deitou por terra outros tantos dogmas, como o da ruralidade do PSD/M. Conseguiu importantes bastiões fora do Funchal e conquistou a capital sem dificuldade.

Saiu derrotado, mas não em toda a linha como muitos previam. Nestas eleições, a vitória e a derrota têm leituras mais profundas e terão, com toda a certeza, efeitos que vão além do dia das eleições.

O partido dividido em dois exige mais do que o reconhecimento matemático dos resultados. O que se votou nestas eleições não foram apenas dois protagonistas. Foi um estilo de estar na política, foi uma vontade de mudança.

É certo que meio partido não se revê na actual liderança, num certo estilo de agir, não se revê num PSD de primeira linha, que pretende viver de glórias passadas e que se apresenta sem soluções para o futuro.

Jardim disse que não conhecia muitos dos militantes que foram votar no passado dia 2 e nem se apercebeu do alcance de tal afirmação. Provavelmente, existe uma razão para este desconhecimento que não reside na teoria da conspiração do líder, mas que habita esse profundo autismo que tomou conta do partido da maioria.

O partido não se apercebeu que existe um partido que vive além da sua esfera mais próxima, que vive além dessa máquina onde se distribuem favores e benesses, onde se traficam influências e se passeiam vaidades e certezas de vitórias absolutas.

O partido que saiu à rua em massa para votar era desconhecido para quem manda e pensa ter o poder amordaçado, controlado, manso e apático. E isto é o mais preocupante. Foi esse partido, anónimo, livre, crítico, subitamente sem medo que saiu à rua, votou e surpreendeu o 'Olimpo', a esfera conhecida e ilustre que afinal tem um um outro lado, mais ligado à vida real e à real situação que se vive e sente nesta terra mergulhada numa crise sem precedentes.

Agora, em vez de alimentar teorias da conspiração e desejos de vigança, talvez fosse melhor descer à terra. Porque se foi o próprio partido que votou assim, imagine-se o que não fará o povo, esse enorme desconhecido para quem vive no conforto do poder e na ilusão de que ainda é possível enganar com obras vistosas e discursos mais ou menos conspirativos.